You have to ask yourself what brought the person to this point

domingo, 12 de janeiro de 2014

Cheira-me a café.

James levantou-se e foi buscar o vinil de Serge Gainsbourg, Histoire de Melody Nelson e colocou-o em reprodução na sala. A atmosfera mudou consideravelmente, ela tinha razão, a descontracção de todo o seu ser sentiu-se inclusive na postura física que adotava.
-Isto incendeia-me o peito. – disse ela enquanto pousava o copo.
-O whisky?
-Sabe a saliva, mas arde.
-Não vamos por aí, algumas salivas também ardem.
-Sim, naturalmente.
-Eu prometi que te ia descrever e estás a distrair-me propositadamente. Ou então é a música que me distrai a mim.
-Olha, eu não tenho nenhuma objeção que me leias mais tarde. Afinal de contas era pouco tempo para teres uma leitura fiável de mim.
James inclinou-se mais para o lado onde Jane estava sentada.
-Então que sugeres?
-Que me dês mais whisky e queijo. Que me deixes fumar muitos cigarros.
-E depois?
-E depois quando eu achar que já estou demasiado bebida, vou sentir-me dormente e muda e logicamente irás levar-me a casa. Amanhã, eu procuro-te e jantamos.
-Isto é o início da relação?
-É o mais perto disso.
-Que calorosa que te estás a revelar.
-Não digas isso como se não te tivesse prevenido.
-É verdade, fui alertado.
-Foste mais que alertado. Amanhã vai doer-te a cabeça a pensares nisto.
-Não pode ser assim tão mau, não és demente.
-Cheira-me a café.
-Não te cheira a café.
Jane olhou para James e riu-se.
-Gostavas que te cheirasse a café?
-Talvez gostasse. Mas do que gostava mesmo era de fazer café contigo.
James levantou-se e estendeu-lhe uma mão, Jane agarrou-a e ele ajudou-a a levantar-se. Conduziu-a até à cozinha e encheu o recipiente da máquina de café com água, ligou a máquina à eletricidade e apoiou-se na bancada da cozinha a fixar Jane.

-Com todos estes anos de experiência, já cheguei à conclusão que as taras por café são as piores.


Inércia, 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

quem és tu

-Que se passa, Jim? – Correu na sua direção, com o cabelo molhado comprido a tapar-lhe os ombros – magoaste-te?
Surpreso com a questão, deitou-lhe um olhar inquisidor mas a orientação do olhar dela fê-lo perceber a questão. Levou as mãos à cara e a gota de sangue que já estava espalhada pela ponta do nariz, espalhou-se ainda mais, como se de um creme mal disperso se tratasse.
-Uma pequena ferida na mão, Jane, não é nada.
Ela tocou-lhe suavemente na pele da cara suja e ele observou-a timidamente, mas sem receio. Era fragmentária a forma como chegavam um ao outro, agora já nada acontecia na totalidade. Era incrível a quantidade de pedaços que ele podia isolar naquele momento da sua vida, constituída de parcelas oscilantes e de inclinações dispersas. Afinal quem era ele? Via ali tanta gente intrincada. Lembrou-se das palavras do Doutor Bell, o psiquiatra e psicoterapeuta que o acompanhava há, mais ou menos, um ano e sentiu-se, tal como ele afirmara, fragmentado.
-Cada vez que olho para ti é inevitável não me lembrar da primeira vez que nos conhecemos. Ainda te consegues lembrar?
James pensou um pouco, ainda conseguia.
-Uma pessoa repara na outra, repara ainda mais. Depois fica louco por ela.
-Jane…
-Deixa, não precisas de mo dizer. Mas penso nisto várias vezes. São os teus olhos.
-Os meus olhos?
Ela fez-lhe um afago lento e reconfortante na pálpebra.
-Os teus olhos. Tens os olhos mais meigos de todos os homens que eu conheço.
-E tu conheces muitos homens.
-Pois conheço. Muitos.
Um sorriso fechado desenhou-se-lhe nos lábios, para que os olhos não parecessem tão torturados. Era perfeitamente percetível o suplício que os habitava. James apercebeu-se, subitamente, que estavam os dois despidos, apenas enrolados na toalha, embora aquela nudez não se sentisse, o que o fez descobrir ironia em tudo aquilo. Jane afastou a mão da sua cara e ele sentiu o cheiro doce da sua pele desaparecer, evaporar-se para longe. Lentamente, como numa memória, viu-a afastar-se, em direção ao quarto, o cabelo molhado até meio das costas. Vislumbrou a figura esbelta a desaparecer na escuridão do corredor, como um delírio desfocado.
-Não percebo porque é que ainda vês os meus olhos da mesma forma. – ripostou, num timbre baixo mas que chegou até ela.
-Tu estás tão enterrado dentro disso que já não percebes nada. Mas não importa, eu espero. – respondeu, sem o ver, a voz a esbater-se pelo infinidade do ar.

James moveu-se em direção à casa de banho para procurar as roupas que tinha despido anteriormente, encontrou-as e vestiu-as. A divisão estava revestida de humidade, provocada pelo banho dela. Inevitavelmente, deu por si, a ler as palavras mais uma vez, enquanto as roupas lhe deslizavam pela pele e se agarravam ao corpo. James viu-se perpetuamente vigiado pelas palavras escritas no vidro embaciado, aquelas a que ele parecia não conseguir fugir. 

Inércia, 2014


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

vinte dedinhos

Atravessa-lhe o pensamento com rapidez a sequência de ocorrências que tomaram lugar na noite anterior e incomodado pela presença realista que o taxista lhe tem na mente, Joan volta-se de costas para Sarah e esconde as mãos debaixo da almofada, de olhar fixo no chão, paralisado pela revivência de sensações que precisa recordar, na amnésia alcoólica do seu delírio passado. Os olhos inebriantes do homem bloqueiam-no num momento irreal de avaliação em que o peso do seu erro para atingir o auge, Sarah não existe neste sonho e não faz sentido que ela se exteriorize, Crystal está apenas presente em forma idealista: um cheiro, um sabor, um toque, uma ideia abstracta de sedução. Joan cerra os olhos e força-os a cerrarem-se mais nesta incapacidade em observar. O coração acelera-se-lhe tremendamente no peito e uma distância irreal afastam-no da realidade perceptível. Escuta-se exclusivamente a si mesmo no centro daquele desenfreado dessincronizado e pensa em como uma coisa tão mundana quanto uma mulher bonita lhe veio destruir a paz. Os olhos do taxista são de tal forma maléficos que voltam para o penumbrar e, surgindo no canto do quarto, espreitam-no em afirmada presença, os olhos a que nada escapa, “deixe-me olhar melhor para si, homem”, ouve-os dizer.
O suor desliza-lhe indiferente pelo peito, gotícula abundante atrás de gotícula abundante, o som de um relógio escuta-se longínquo na cozinha, aquela sempre presença do tempo que passa e que o aterroriza, os dois olhos que percorrem as paredes ínfimas do quarto, são tão flexíveis quanto duas pernas porque se fazem entender em diversos pontos distintos.
-O senhor precisa de descansar, não lhe faz bem apaixonar-se por uma rapariga dessas que se alimenta da sua alma. – ouve o homem dizer, na sua voz mais confessional, paternalista e trocista, o homem não quer verdadeiramente saber dele, só está ali presente ao canto do quarto para o assombrar, quer rir-se dele, o artista que perde o controle do seu rumo.

-O senhor vá dormir e tente compreendê-la! Faça o que fizer já é muito tarde, a criatura já se lhe apoderou do corpo. Agora o máximo que pode fazer é dar-lhe um dedinho, animais como ela já se contentam com um dedinho…mas tenha cuidado! Só tem vinte dedinhos e vinte vezes acontecem muito rápido, é só duplicar as dez, quadruplicar as cinco, você sabe do que é que eu falo….


O pijama da Gata

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

sem hostilidades geográficas

Caminham delicadamente, já noutro local mais sóbrio e diáfano que o anterior onde a recordação se prende no devorar de um fruto vermelho que lhe salpica a boca de um sabor melífluo e suprimido, os pés de uma felina incessável que se agita através de uma deliberação irreal à rendição e ao aprazimento.
A rua húmida e cálida denota um cheiro a alcatrão molhado que sensualmente vai devorando os indivíduos que nela se inserem como pequenas peças num tabuleiro onde o jogo é ilimitado.
Spike Hill avista-se a vários passos que os distanciam  mas que são rapidamente encurtados por passadas seguras e precisas, num girar de ancas muito ligeiro e sugestivo. Empurra com a mão pequena a porta de madeira alta e penetra um espaço frenético de batuques e melodias que se frisam no ar rasgado do estabelecimento em frequências altas e disformes de jazz e blues quase seriamente experimentais. O ambiente é pesado e intenso. O casaco comprido que lhe reveste as curvas delineadas é puxado por um braço vigoroso e forte de um homem de barba já branca que lhe segreda ao ouvido num sussurro lânguido:
-Ivy… - mas ela abre a boca num boleado perfeito de enlevo e segue indistinta até ao balcão, despersonalizando-se enquanto caminha num trajecto seguida de néones vermelhos que facultam o panorama underground de Spike Hill. As pernas entrelaçam-se num sentar certo e quase autónomo e o veludo macio das cuecas sente-se no entre pernas que vinca dois músculos firmes suspensos pela pressão desmedida.
O olhar do homem é insistente e atravessa o compartimento ainda que as costas voluptuosas o ignorem, mas comunicam numa ignorância tão quimérica e extraordinariamente rude.
-Ivy… - corta novamente e ela volta-se, com dois cubos de gelo frios entre a língua, desbotados pelo vermelho berrante dos lábios que se vai aniquilando. Não que não o sinta porque os corpos cansados dos dois roçam-se sob as luzes encarnadas e sobre o fumo embaçado daquele edifício complicado. Arqueia as costas perigosamente e ele aproxima as mãos só ate sentir o calor que emanam tão impetuosamente e que se dissipa num odor denso mas deliciosamente doce.
-Ivy… - ressoa novamente e ambos engolem os quarenta e oito graus de álcool cujo efeito veloz é patente logo após esse primeiro gole de muitos outros já tomados. A voz ondula e reproduz-se no ar, anexando-se às frequências improvisadas do sax e da bateria e do trompete mas é o som infalível do piano que se distingue. Já não é o homem que a nomeia, já não é a música que toca, já nem é, sequer, o whisky que se bebe. Cruzam-se várias parcelas essenciais mas só se distingue uma…Ivy.


Um exercício em Williamsburg.

domingo, 3 de novembro de 2013

os olhos de um génio

 Crystal entende-se no reflexo do espelho e compreende quem nem todas as coisas são assim tão complicadas, que a composição perfeita daquele cara é uma sorte do acaso, que o homem que a observa da cama está prestes a sair e que é só ele que lhe lê totalmente o espírito. Não se sente agredida por nenhum destes factores, não se sente desesperada pela adversidade da situação, ao invés, fita-se seriamente frente ao espelho e pensa que a singularidade da vida possui um curso muito próprio, não deve remar contra ele mas sim aprender a aliar-se. A chave para a satisfação está sempre lá e ela vai aprender a lê-la, as pessoas são todas felizes e só precisam de o compreender.
                A noite começa a pôr-se lentamente e é geralmente nesta altura que Crystal mais sente a solidão só que hoje a sua pessoa não a assusta. Calmamente começa por aplicar um creme, a base da maquilhagem, para logo depois passar para a base com cor que lhe fornece uma matiz perfeita. Aplica duas gotas de perfume no pescoço e nos pulsos e inspira o odor doce. Na cama, Joan sente a fragrância chegar-lhe como uma onda natural de ar. Basta-lhe cheirá-la, prová-la, tocar-lhe, vê-la ou ouvi-la para que imediatamente mergulhe na imensidão do seu ser. Ela move-se na cadeira e murmura qualquer coisa ele olha-a e chama-a para a cama:
-Vem cá.
Mas ela não se levanta e não lhe responde. Pega no lápis dos olhos e desenha duas linhas negras nos olhos com precisão, tornando-os compridos e exóticos, o preto que dá profundidade ao cinzento. Aplica o rímel nas pestanas que, já grandes por natureza, ficam mais espessas e completam os olhos com um magnetismo ainda mais intenso. Passa para a boca, delinea os lábios com um lápis vermelho, passa neles um batom da mesma tonalidade, voluptuosos e cheios, a boca da ruína.
-Tens os lábios de um animal perigoso.
-Tens as mãos de um doido. – diz-lhe ela, fitando-o.
-Como é que os doidos têm as mãos?
-Como as tuas. Agarram tudo com as mãos cheias, dedos rijos e duros, bonitos. Mas deixam cair sempre qualquer coisa. Às vezes deixam cair tudo.
-E as tuas mãos?
-Deixa estar as minhas mãos. Elas só tocam nas coisas, raramente as agarram.
-Não queres vir até aqui?
-Vou sentir a falta de ouvir isso.
-Vem cá.
-Pede-me só mais uma vez.
-Vem cá.
-Outra.
-Vem cá.
Crystal levanta-se e movimenta-se até à cama, a cara excelentemente composta. Joan prende-a nos braços musculados e beija-lhe a boca repetidamente para se lembrar do cheiro e do sabor dela. A porta que dá para o corredor está aberta e consegue compreender-se o corredor escuro onde um homem sobe as escadas e entra na porta correspondente ao outro apartamento. Solta-se do seu colo, abre as persianas e uma súbita e forte luz entra e fere-lhe os olhos mas ao fim de algum tempo torna-se agradável. Segue até à porta e fecha-a.
-Eles ainda querem ver. – diz Joan. – Está quase no fim.
Crystal suspira e abre a porta. Olha em redor, vê os espectadores e emociona-se por eles, depois por ela e finalmente por Sally. Acaba sempre por se considerar uma boa escolástica.
-E agora? -Joan volta o olhar para ela da cama.
-Agora vou procurar um cigarro, acendê-lo e fumá-lo.
-Como sempre.
-Vou chamar-te e vais suspirar. Vais aproximar-te e deitar-te nos meus braços.
-A teu lado.
-Vais deitar-te a meu lado. Já te disse que ficas particularmente elegante com os lábios tão vermelhos?
-Depois vou agarrar-me ao teu corpo e beijar-te a mão.
-Vou estar a fumar.
-Beijo a outra.
-Podes beijar a outra. Não te esqueças da minha mão.
-Não. São dedos muito particulares.
-Já sei. Mãos de doido.
-Vou tirar um cigarro e vou fumá-lo também. Brevemente será de noite.
-Vamos fazer amor outra vez, vou devorar-te o corpo. Depois vais levantar-te e ver a cidade. Vais pensar no nosso quarto.
-Vou comprá-lo.
-Vais comprar o nosso quarto de motel?
-Vou.
-Vais ver a cidade e vais fumar um cigarro sobre a luz verde do quarto. Vai ser uma noite igual às outras. Vais pensar na mesma tristeza.
-Em como a cidade é diferente enquanto todos dormem.
-Vou levantar-me e vestir-me, vou estar demasiado absorvido em ti para que me aproxime.
-Nós não sabemos dizer adeus.
-Não te vou dizer adeus.
-Vais sair?
-Vou sair, apanhar um táxi e vou para casa. Talvez não. Vou a pé. Quero perder-me nas ruas.
-A cidade é muito diferente quando estão todos a dormir.
-És um ser muito particular.
-Mas não tenho essas mãos.
-Não tens estas mãos.
-Eu vou acabar o meu cigarro e não te vou ver partir, a cidade vai ter-me totalmente naquele instante. Não vou ser tua, vou ser da cidade. Depois vou levantar-me e vou sentar-me no toucador.
-Vais por música?
-Não.
-Vais sentir a minha falta?
           -Ainda não. – Crystal faz uma pausa e contempla-o, tem os olhos mais bonitos, são os olhos de um génio.


O pijama da Gata, 2013

sábado, 5 de outubro de 2013

na boca de um ser insaciável

-Eu sei. – diz. – Gostarias de mim se não fosse bonita?
-Não sei.
-Não sabes?
-Não.
-Porquê?
-Não sei até que ponto isso manteria a pessoa que és, com as experiências que já tiveste, não sei até que ponto isso não te tornaria numa pessoa totalmente distinta.
-Acho que te iludes em relação à beleza.
-Adoro a coragem que tens ao dizer uma coisa dessas!
-Adoro o teu lado sombrio e periclitante!
-Porque é que continuas a vir até aqui?
-Porque me sinto confortável. Não exiges que eu seja assim tão boa.
Joan acende um cigarro.
-És uma rapariga boa mas que gosta que a achem má.
-Preciso só de me perder e deparar-me noutro sítio. Compreendes esse tipo de amnésia?
-Chego lá.
-Como agora.
-Como agora?
-Vou-me deixar ir nesta pessoa que te ama.
-Não devias fazer isso.
-Não devia fazer muita coisa. – Crystal levanta-se da cama e começa a vestir-se. – Nem tu. Que estou a fazer aqui hoje?
-Não era o que querias?
-Não assim, Joan.
-É o máximo que te consigo dar. Não tenho mais nada.
-Privas-te de ter seja mais o que for.
-És insaciável.
-Ora, quem não é?
Crystal faz o vestido azul subir-lhe pelas pernas e enquanto abotoa os botões sente os dois olhos castanhos fixá-la tristemente.
-Tu és um prazer inconfessável.
-Eu sei.
-Nunca vai mudar?
-Não sei, querido. – Crystal senta-se na cama e beija-lhe os olhos – Será que vai? Não é assim tão difícil confessares só que tu és um medroso, é esse o teu bloqueio, tens receio de te arrepender. Somos seres muito ambíguos eu sei e claro que é excitante. É muito excitante mas a ti a adrenalina dá-te medo. És um conformista.
-Quero ir visitar-te à tua casa.
-Nós já temos uma casa, vemo-nos nessa.
-Será?
-Não, pessoas como nós nunca sabem onde é a casa. És assim tão infeliz aqui?
-Tem dias.
-Responde.
-Não.
-Bem me parecia. Ou então morres de desgosto mas és demasiado conformista.
Crystal levanta-se e começa a arrastar-se em direção à porta.
-Tu vives com demasiada epinefrina. – grita-lhe ele.

            -Estou faminta pela vida.

O Pijama da Gata

domingo, 8 de setembro de 2013

falas demasiado.

-Falas demasiado, desculpa. – profere e ri-se do seu olhar esgazeado. – Sally?
-Sim – responde-lhe esta.
-Já não sei qual delas devo ser, qual devo representar neste momento.
-Estás muito cansada…e se te deitasses?
-A minha alma está cansada de tanto dormir.
-A tua alma está cansada desse gin.
-Este gin… - Crystal agita o copo entre os dedos, procura uma azeitona e com os dois dedos temulentos coloca-a entre os dentes –É só um copo de gin, preciso disto para trabalhar.
-Não precisas verdadeiramente de nada. As pessoas iludem-se com necessidades.
-Respondes-me a uma questão, Sally?
A outra assente.
-Qual delas devo ser? … Porque te ris?
As gargalhadas de Sally são maléficas e ressoam diabolicamente pelo quarto.
-Porque te ris? É de mim? Estou muito cansada, Sally, o meu ser está cansado desta adulteração de personalidade sempre tão sujeita à mudança. Mas porque te ris? Deixa-me servir mais um e podemos rir juntas… mais uma vez.
Crystal encontra Sally na solidão do dia onde a sobredosagem da sua pessoa e um vinil gasto de jazz lhe preenchem a alma. Já é muito tarde do dia seguinte à noite e nem pequeno-almoço tinha tomado. Limita-se a preparar algumas bebidas, feitas sem qualquer rigor, as quantidades de álcool incertas, e num sorriso derrotado devora-as. Vê o contorno jovem das suas linhas e deseja ser muita velha e perceber mais coisas da vida. Sabe que com o tempo vem uma grande maturidade emocional e sente em todo o seu corpo a necessidade de que esse amadurecimento ocorra rapidamente. O colapso emocional que está a sofrer vai para além de qualquer coisa que jamais experimentara. Sente-se como se os seus pensamentos tivessem sido violados, a magnitude e a tristeza dos seus olhos é imensurável e, numa pose fixa, observa a sua silhueta no espelho e comove-se com o sofrimento que se lê nos seus olhos.
-Nós não controlamos isto, é isto que nos controla a nós.
-Isto o quê, Crystal?
-A criação! O que haveria de ser. Não somos nós que controlamos a criação, é a criação que nos controla a nós. Entende bem a estupidez deste diálogo. Já estás tão entranhada que não preciso de te dizer isto.
-Crystal…
-O que é Sally? Não controlamos a vida, a vida é que nos controla a nós.
-Vais dizer-me que não gostas nem um bocadinho que aquele homem tenha medo de ti?
-Que queres dizer?
-Que isso quer dizer qualquer coisa, não quer?
-Talvez…Sim…acho que quer.
-Quer dizer demasiado.

-Já és uma personagem muito completa.

O Pijama da Gata