You have to ask yourself what brought the person to this point

segunda-feira, 11 de março de 2013

those fucking legs


Eu percebia tudo mas ela não. Ou talvez fosse ela quem percebesse tudo e eu não. O que conta é que foi aí que ficámos. E uns tempos mais tarde ela saiu da minha casa e eu queria que ela se fosse embora porque não aguentava mais com aquele cheiro. Era um odor demasiado…matreiro. Ficava empregue nos lençóis, nas roupas que usava (mesmo após a sua lavagem, e eu bem tentava) e no ar que se fixava nas paredes, entranhado. Cheirava tudo a ela e a febre era latente. Arrastava-me languidamente pelas divisões da casa e esfregava-me, tal gata com cio. Demorou algum tempo até sair esse fedor. Até ficar completamente aniilado. E depois foi-me permitido que vivesse em paz mas sempre consumida por uma ideia, que não era concretamente uma ideia, mais uma imagem, uma lembrança, de a ver passar a sala, discretamente nas pontas dos pés para não fazer barulho, soprar-me um beijo silencioso com o dedo esguio encostado aos lábios carnudos e desaparecer pelo vão das escadas. E eu já sabia…oh! Sabia tão bem! Onde é que ela estaria, com as meias enroladas nas mãos, a subir pelas pernas, através da pele, o olhar muito estreito e observador que ela me dirigia “Eu sei que estás aí”, “Eu sei que me viste” para depois desaparecer porque eu apagava a luz. Não precisava de ver. “Fica aí dentro.”, quase lhe dizia, “não há necessidade de vires fazer isso aqui para fora. Esconde-te. Deixa-me.” E passava novamente para escovar os dentes e observar-me ao espelho; as feições da face sobre outras feições da face e puxava a minha meia preta também. Sabem aquelas pessoas que conhecemos durante muito tempo mas que quando chega a uma altura nos apercebemos de que não sabemos quase nada sobre elas porque estávamos tão tremendamente apaixonados que nos esquecemos do que é que no meio daquilo tudo era o amor e o que era de facto a realidade? Ela era como uma canção triste de Jazz, pode falar sobre muita coisa, mas é repleta de brusca nostalgia e choramos sempre.


 Conto 9: Black Velvet Canadian Whiskey, História de uma Garrafa de Whisky

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

tinha pedido sem gelo


-Criar aproxima as pessoas. Concebemos uma viagem que nunca aconteceu mas já voltámos e estamos novamente no quarto onde o único movimento é realizado pela ventoinha. Ele enche um copo de whisky e saboreia-o.
-Não é para arrancar, é para celebrar o arranque. Ela observa-me, observamo-nos em silêncio.
-Encho também eu um copo e vejo o líquido verter e cintilar. Brilha ao lado de dois cubos de gelo transparentes que se diluem. Tinha pedido sem gelo. Devo bebê-lo rápido para que a sua essência não se dissipe. A atmosfera do quarto parece mais leve mas ainda condensada. Não é dos sítios, nem do ar, é das pessoas. É só de nós os dois. Dou um gole no Laphroaig e o som implacável dos lábios a sorverem a bebida anexa-se ao da língua a envolvê-lo e da garganta a fazê-lo deslizar, ruidosamente, até ao estômago. É o único som que aniquila os outros, o da ausência de palavras, o da solidão de um ser a beber sozinho na presença de outro que também bebe mas não faz som. Era como se não existisse mais nada.  




Conto 5: Laphroaig, História de uma Garrafa de Whisky

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

U turn


Ele encostou o braço no arco da parede da sua sala e a palidez daquela pele de onde o bronzeado se ia cada vez mais extinguido contrastava com o conjunto de recortes que decoravam a parede. Ela mirava-o pela altura do sofá e a primeira coisa que via se olhasse em frente eram os joelhos e as coxas musculadas. Tinha um corpo muito trabalhado, robusto, com um tronco proporcional ao resto do corpo, os braços e os ombros largos, as mãos grandes, de homem, o abdómen definido. 
Com a mão que tinha livre segurava um cigarro que levava à boca e exalava o fumo na sua direcção. A sala era preenchida pelo vapor quente das suas respirações. Conseguia observar os dedos dos pés descalços e as unhas pintadas de azul negro, de pequeno porte, pés delicados. Os seios rolavam-lhe para os lados e o ventre era liso e aclamativo.
-Não podemos fazer isto tantas vezes, loirinha. Vou-me apegar a ti e tu não precisas de um rapaz como eu atrás de ti.
Ela sorriu e limpou um bocadinho da saliva dele que lhe molhava o mamilo resfriado. Não era bem um sorriso que queria expressar. Sentia a efemeridade daquele momento a passar-lhe ao lado.
-Deixa-me fumar contigo.
Ele desapoiou-se da parede e caminhou na direcção dela. Estendeu-lhe o cigarro aos lábios e constatou a beleza de uma rapariga a fechar os olhos e a inspirar do fumo de um cigarro e depois a exalá-lo. Levantou-lhe a cabeça com a mão, de forma a sentar-se e a pô-la no seu colo. Os olhos cinzentos pendiam ao lado do seu pénis flácido e tudo se encaixava num panorama. Deu-lhe o cigarro para as mãos e afagou-lhe as maçãs do rosto repetidamente, conseguia projectar-se a fazê-lo mais frequentemente, porém sabia que não iriam nunca passar daquilo.

 Conto 11 - História de uma Garrafa de Whisky

domingo, 9 de dezembro de 2012

what a lady


era à noite, já tardia, quando Megan adormecia depois de fazerem amor exasperadas que Amber fugia do ninho e se esquivava para um local secreto, profundo e sombrio, entre a alma e o desejo, onde se entregava a si própria, aquela que sentia outras coisas e que não tinha a capacidade de fingir. Compreendia que se enganava, em parte a si mesma, mas outro seu lado não estava enganado e gostava. Gostava de Megan e do que representava estarem juntas e amarem-se uma à outra daquela forma, fazerem amor daquela forma, andarem de Alfa, bronzearem as pernas e ouvirem jazz daquela forma. O mundo parava e não se lembrava tanto, só que por vezes, era inevitável, e a rotina fazia-a recordar ainda mais. Era uma parte de si que estava enterrada num sítio ilegítimo, fazia-a vacilar e era só nesses momentos, quando a amante adormecia, que ela conseguia rastejar para fora da cama, na sua independência e procurava o espaço que era seu, o desejo que a consumia, a saudade que já não era mera recordação, a folha do papel onde escrevia, onde queria escrever, a cassete de jazz que era só sua e esquecia. Esquecia quem era, onde estava, porque ali estava, esquecia a nova Amber, a que queria ficar e queria amar a sua gémea e voltava a querê-lo a ele. Queria-o a ele e não desejava mais nada.
-Consegues ver-nos? – perguntou-lhe Megan.
-Sim. E tu? Consegues ver-me?
-Já só nos vejo a nós. Somos a senhora mais elegante do mundo, sabias?
Amber riu-se.
-Sim. Eu sei.
Megan beijou-lhe os olhos e depois a boca e murmurou:
-Esta casa nunca mais vai ser a mesma coisa, nunca mais vou conseguir deixar de ouvir esta música e cheirar o teu corpo, a tua pele, beijar-te os olhos.
-Não me vou embora.
-Não estou a dizer que vais. Estou a fazer uma coisa diferente, estou a imortalizar-nos. Isto já não vai sair da minha casa nunca mais. – beijou-a novamente – amo-te.


Conto 10: Glenmorangie, História de uma Garrafa de Whisky

sábado, 1 de dezembro de 2012

sorria, tentadora.



O quarto era tomado por uma escuridão pálida e a luz esbranquiçada que provinha do exterior tornava-se mais fosca e, subitamente, a penumbra transforma-se em imensidão azul. Só assim se viam os dois corpos traçados por riscas de cores variadas, muito despreocupadamente pintadas, as palmas das mãos carimbadas pelo corpo em tinta invisível, o rasto que perdurava, a fragrância,  a mais voluptuosa, o sentido que não desaparecia, nos corpos dos dois seres, pelas paredes, o cheiro que impregnava e o brilho riscado e mesclado de um universo e de uma percepção  que não seria possível de entender na imensidão do negrume da escuridão. Pelo tecto, sorria, tentadora, o sinal pouco implícito de uma seta que atravessava o estuque pérola da parede em direcção aos corpos sem que estes se apercebessem, descia subtilmente e ia-se instalar sobre a pele, junto aos sexos, a provocar uma pressão desmesurada, a potenciar um desejo cada vez mais progressivo. Amber acordava e agarrava os seios com as mãos, sentia um calor inevitável que se ia intensificando e subindo para se transformar num aperto na garganta, profundo, mas existente, que não a deixava respirar, que lhe aquecia o corpo e a palma das mãos e quando dava por si, esfregava-se no corpo de Megan, incansavelmente, e esta acordava e saciava-a, com amor e ternura, mas sem animalidade feminina. Uma loira sobre a outra, os cabelos da cor do trigo entrelaçados pela fricção dos corpos, os olhos dementes, a fundirem-se, como se a união dos sexos e do suor que pingava um sobre o outro fosse transcendental. Dois demônios a respirarem o mesmo ar, a beberem da mesma saliva e a seta lá no meio, a fazer coacção para que aquilo não parasse e não parava.

-Esta luz está dentro do quarto, a ver de dentro para fora. Consegues vê-la? Só de dentro para fora. Um sitiozinho escondido. - 
proferiu Megan e Amber sorriu e levantou-se.

 

Conto 10: Glenmorangie, História de uma Garrafa de Whisky

terça-feira, 13 de novembro de 2012

I lied. undo me in a whisper


-O que é que vieste buscar? – pergunta-me o Led, denotando uma ausência de interesse pela minha presença improvável. Observo-o com os dois olhos ansiosos e predadores, a minha boca sente um gosto seco e intragável, toda a minha placidez é ansiedade. – Certamente não vieste jogar poker.
Focalizando a pressão na ponta dos dedos pintados, levo-nos até à cozinha do porão ilícito e começo a devorá-lo lentamente com os dentes e a língua. Subitamente um corpo rígido e erecto transforma-se numa massa gelatinosa entre os meus braços famintos e ouço-o arfar e vir-se, sucessivamente, alimentando-me de um amor facultativo e desmesurado. Um deslize lubrificado do pénis dentro de mim e as lágrimas começam a pingar-me o peito franzino. É o fim da festa, Figgy. O fim de tudo. Aprisiono entre as mãos erguidas o membro que, em sentido, se impõe revelando as suas formas tão perfeitas e trabalhadas quanto as da face ornada e manuseio-o até ele esguichar em todas as direcções e em alternantes intensidades. O Led solta este gemido altivo e tremendamente voluptuoso para me cair para o colo qual criança cansada implorando por afagos e carícias. Beijo-lhe a tez e observo-o enrolado em volta do meu peito reduzido, observando-me com olhos estouvados.
-Eu sabia que faríamos amor. – diz ele, numa peripécia calculável. Eventualmente tudo se desmorona. Sim, as arquitecturas estão fracamente construídas, necessitamos de melhores empreendedores. Procuro no bolso o saco de pó que habitualmente lá se encontra e cheiro as linhas uma a uma com calamidade. Ergo-me de joelhos e beijo-lhe o rósea dos lábios ainda ofegantes e já vermelhos da auto-pressão provocada pelos dentes.
-Eu não faço amor. – cuspo, enquanto me afasto agitando as nádegas mas sem orgulho e tirania. Compreendo enquanto me afasto do edifício que as lágrimas já haviam secado há muito tempo e que tudo não passa de identificar os problemas e de saber como os censurar e não complexificar. É tudo muito mais simples quando não nos preocupamos. Mais tolerável.

Suntory Yamazaki Single Malt Whiskey Conto 7, História de uma Garrafa de Whisky

sábado, 3 de novembro de 2012

blowing kisses


Caminho pelas ruas em grupo porque arrastamo-nos sempre numa sociedade selectiva e elitista de membros poderosamente influenciadores. O Figgy acelera o passo pesado junto ao meu caminhar solene e cansado e entrelaça os dedos cuspidos nos meus, partilhando essa saliva suja pelas nossas epidermes agora contagiadas. Observo-o enquanto me sinto arrastada pela demência e autoridade dos nossos passos. Possui um caminhar demasiado tentador. Movimenta-se num arrastar tão suave e dominador, é um tirano. Fuma um cigarro que ainda agora acendeu e cuja ponta queima na noite sombria para depois me sorrir docilmente enquanto pisca um olho castanho e me sopra:
-Adoro-te. – mas as palavras esvanecem-se no ar. Aperto a mão molhada contra a dele e cerro os dentes dentro da boca com tamanha força que as gengivas endurecem e as paredes bocais se rasgam em pequenas fendas inofensivas mas desconfortáveis. Não fazes ideia, sussurro.
-O quê, Alicia?
-Nada, companheiro. – diz o Led que domina connosco, na nossa multidão. – Ela não disse nada. Pois não, Alicia?
-Não. Não disse nada. – sussurro e entrelaço mais os dedos húmidos que se difundem.
A humidade que se despega do alcatrão molhado e que nos embate na cara obriga-me a inspirar profundamente esse cheiro orvalhado que depois diverge e se altera para uma brisa ilícita de substâncias que são inspiradas e cheiradas na nossa aura de diversão.
-Ela é a minha miúda. – diz o Figgy, num tom imperativo e intimidador – É a minha miúda – repete – não a tua. Eu sei quando é que ela diz alguma coisa. – acelera o passo – tu não. – e volta-se subitamente para mim, apertando-me a mão com ternura e auspicia - Diz-me, querida, o que foi que disseste?
-Eu disse – engulo em seco e mantenho um olhar animal – que também te amo.
-Eu sei, babe. – diz, apertando-me a mão e a nádega com a que segura o cigarro – nós adoramo-nos para caraças. Eu adoro-te para caraças. És minha.
Observo o movimentar seco dos seus lábios e estremeço. O amor é um lugar estranho. Não estou certa de saber o que significa. Mas sim, nós adoramo-nos para caraças. O Led silencia-se e observa-me nesta posição dominada. Olho-o com curiosidade. Ele afasta-se mas mantêm-se ao meu lado, na mesma posição. Sopra-me um beijo.


Conto 7: Suntory Yamazaki Single Malt Whisky, História de uma Garrafa de Whisky