You have to ask yourself what brought the person to this point

terça-feira, 16 de outubro de 2012

I'm sorry


É tudo demasiado erótico para ti. Para o fumo do teu cigarro e para as gotas do teu whisky. <<É tudo demasiado erótico para todas as pessoas. É tudo demasiado. Entende a dimensão de demasiado?>> Não entendo a dimensão de nada. As coisas estão “desimensificadas”. Eu encontro-me desimensificada. Perdida. Embebida em whisky e cigarros. Adormecida num estado de despertar constante. Inexistente numa existência imensurável. Só que, ironicamente, isolada. Ausente de todos os passos grandiosos que tu dás, de todas as instâncias sacras que tu retrais. De todas as ocultações que tu, com tirania, exploras. Sou a tua última indagação com êxito. O desenlace será previsível a partir de agora. Já conheço todos os finais dos teus começos, todos os ataques dos teus combates. Conheço o sítio onde vives sem nunca ter, porém, chegado lá. Broto novamente e cesso este parágrafo, com o resto da bebida que se balança no copo e acendo um cigarro. O que se iniciou como um projecto de libertação transformou-se numa eloquência colossal e eu sei que não evito brindar demasiado. Não gosto de partilhar essas coisas. Nem tu. Sabes que estou correcta. Lamento não ser o teu papel.











Conto 4: Ballantines, História de uma Garrafa de Whisky

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

a nu. naked.


-A dor envelhece as pessoas, arrasta-as para o cruel destino que é a fatalidade. Gostaria de me ter sentido eterna durante mais tempo, talvez um pouco antes de me surgirem as primeiras rugas na cara, ainda tímidas, a vincarem o que seriam os meus olhos cinzentos tímidos, ou a contornarem as expressões do meu sorriso, no meu peito, em redor dos mamilos, nos nós dos dedos, a revelarem a decadência da idade. Uma mulher pode mudar tudo mas não altera as mãos. Sinto-me ficar velha, sinto-me perder os últimos raios da juventude, da inocência. Penso que se terá extinguido até à sua última réstia. Foi impiedoso, cruel e desnecessário e eu deveria viver sem conhecer esta sensação de envelhecer, ou pelo menos, desconhecer que pode ser uma sensação, tão precocemente. E não vos culpo mas também não vos admiro. Admiro-te mas não por isso, não por me protegerem da decrepitação do meu espírito. 

-Ela tem de perceber e sinto a necessidade de lhe explicar mais justificadamente o porquê de não conseguirmos dialogar, de não lhe conseguir expor o que sinto, a minha própria incapacidade de me aproximar dela. Tens de perceber. Um pai não se aproxima porque os pais nunca sabem a verdadeira dimensão do caminho a percorrer e parece ser tremendamente distante.

-Incompreensivelmente curto.

-Não poderia haver mais intimidade que isto, a nossa exposição cruelmente ausente de tabus. Se te revelas, profundamente escondes tudo o resto. Tens um espírito que paira leve sobre as nossas cabeças e não permites que se revele. Não me temas. Tens que ter conhecimento de que os pais nunca sabem. Nunca sabem nada. O porquê de não conseguires falar é me tanto um mistério como a causa para não forçar esse abeiramento. Os pais nunca sabem. O caminho pode ser tão curto mas também tão longínquo. Ouço-a lacrimejar. Limpa as duas lágrimas que lhe rolam pela cara. Observa-me do canto do quarto.

-Eu queria ter a capacidade de te contar tudo.

-Assim tão simples?

-Assim tão simples. Contar-te tudo e pronto. Consigo detetar-lhe na expressão dos olhos aquela mágoa que noutras ocasiões já havia presenciado. Não é o olhar da intolerância, ou da incompreensão, é o olhar da misericórdia. Não me castiga, nem me repreende, nem me afasta, chora só, ao de leve, por ser incapaz de agir, por não conseguir chegar até mim, por sentir o primeiro odor da inércia, por estar estagnada, com tanta imobilidade. Não somos assim tão diferentes. Lembras-te do que nos trouxe até aqui?

-A condição arbitrária que nos fez percorrer estes quilómetros foi a distância que delimitava duas pessoas que não deveriam conhecer essa distância. Sempre foste muito próxima de mim, sempre te soubeste expressar, até quando me confessaste que simpatizavas mais comigo do que com a mãe, eras frontal e honesta.

-E agora um mudo.

-Pensámos que o whisky e os cigarros iriam resolver. Usar os combustíveis para queimar. O quarto fechado, ia começar o fogo. Longe de tudo, noutra vida. Só tu e eu e carburantes.

-Oh…já me recordo…vínhamos criar a nossa zona de transferência, onde duas pessoas diferentemente sós se conseguem ausentar e apresentar e projetar e entender. Uma zona para os nossos espíritos.

-Recomeça. Volta atrás. O que é que pensas do amor?

-São as questões mais simples que criam grandes impasses entre os seres racionais.

-Quero reunir todos os teus sons. Quero que exponhas o som da consciência, o som da culpa, o da obsessão. Quero que esta zona se crie naturalmente.

-E que chore?
-Podes chorar. Eu sei que choras.
 
 
Conto 5: Laphroaig História de uma Garrafa de Whisky

domingo, 9 de setembro de 2012

mad dogs


O quarto escureceu. Alguém se movimenta na escuridão diante de mim. Vejo as sombras esguias e indefinidas a formarem-se no painel negro que me é perceptível e murmuro dois ou três sons antes de dar um passo em falso e o tentar agarrar. A sombra. Espirra. É um espirro muito ligeiro e propositadamente inanalisável. Pela densidade do ar diria que se trata de um homem, mas os movimentos são notoriamente femininos. Escuta-se um arrastar de tecido pela superfície da pele e é tudo demasiado sensual.

Há uma cadela que se rebola pela minha cama e diz que quando quer se consegue transformar em gata, digo-lhe que sou um céptico e depois ela faz com que eu não me mexa mais da cama. Nem sequer me deixa chegar ao pé do meu saxofone, a cadelinha. Diz que ali é tudo dela e que se quero continuar a vê-la tenho de deixar de ser narcisista. Não são as minhas trombas a única coisa de relevante no mundo. Digo-lhe que nem sequer sei o que é que é relevante. Tipo a palavra… relevante…Depois imploro mais um bocadinho e digo que isto é deveras importante e que quando um músico sente a música a fluir-lhe pelo corpo ele tem de a agarrar e de fazer amor com ela para que ela não se vá embora como uma cadelinha ingrata. Ela diz que não se importa, que quem já tem uma cadelinha não precisa de duas. Mas ela não sabe que quem tem uma cadelinha precisa sempre de mais do que uma.
 
 
Conto 6: Ardbeg, História de uma Garrafa de Whisky

sexta-feira, 22 de junho de 2012

was I? was I exact?


E não nos dizem todas as doutrinas que possuímos a incumbência de sermos ambiciosos? Eu sou tão, tão, tão ambiciosa. Certa vez tentei contrariar a irreversibilidade da vida. Não sabia eu mas fundamentalmente estava a contrariar o próprio propósito da palavra – irreversibilidade. É o meu outro problema com prefixos “i”. Sempre que se avistam os “i’s” é porque qualquer tentativa de infracção é, novamente, i-mpossivel. Mas como observas a minha ambição é desmesurada, incrível, demente. Tento fazer tantas mais coisas com este banal e mundano corpo que todo o universo cai em cima de mim, pela impossibilidade de tais acções. O mundo, afinal de contas, é meramente proporcional, eu sou aquela que está totalmente desfeada. As totalidades são formadas através de fragmentos mas os que me constituem são desconexos, desalinhados.
Recordo-me de ti em momentos de impossível repercussão. Sinto a tua falta em momentos de momentânea nostalgia. É tudo tão errado. Descontrole. O ser humano a falhar anuindo à tentação. Isolei-me do mundo, reservei as parcelas que não deslizaram e fugidias me escaparam dos dedos dissipando-se no mundo em meu redor. Estou disposta a enclaustrá-las dentro de mim. A minha terapeuta diz que é uma loucura, que não sou ambiciosa quando o tenciono fazer mas que sou ridícula. Puramente ridícula. Que as pessoas se perdem e evoluem – naquele sentido quimérico que eu dou à palavra, sabes? Racionalização: que a evolução é um processo de racionalização e de alteração, que repara ou te arrasta até um total retrocesso às origens simplórias da nossa existência. Tu tinhas o terrível hábito de ser bastante mais racional que eu. Eras escrupuloso e sistemático. E toda a minha presença residia neste plano grandioso de toda uma existência visivelmente proporcional, fui exacta?




conto 4: Ballantines, História de uma Garrafa de Whisky

sexta-feira, 15 de junho de 2012

-fuck it.


Seguiram-se três dias e só agora acabei de tomar o meu primeiro duche. O cabelo molhado espalha água pelas costas, que húmidas e escorregadias, vão permanecer assim até o roupão branco de algodão as secar. O Steve surge pouco tempo depois de mim e ainda molhado seca-se a uma toalha azul escura e procura a roupa lavada que o motorista lhe havia trazido no dia anterior após ter afirmado que se iria embora definitivamente, e na altura haviam já passado 2 dias. Agora foram três e ele ainda não partiu e a casa parece mais cheia e preenchida. Enrolo um charro e o seu olhar atento segue-me e o ouço-o suspirar e prosseguir.
            -Vou-me embora Leigh. Se fumo mais um desses já sei que só volto a sair e a vestir-me amanhã pela mesma hora.
            Sorrio sem despegar o olhar da mortalha e da erva.
            -Não. Estou a falar a sério. – diz-me. – Já sei como isto vai acabar. Vou ter mesmo de ir. Vem despedir-te de mim.
            -Não precisamos de nos despedir. – digo, passeando enquanto enrolo a mortalha em volta da erva – eu sei que vais voltar.
            -Não preciso voltar.
            -Não precisas mas vais.
            Colo as duas faces da mortalha e finalizando o charro acendo-o. Ele dá dois passos na minha direcção mas arrepende-se e recua.
            -De certeza que não queres? – sugiro, acenando o charro seguro entre os dedos. Ele suspira e olha de relance para a porta. Estudo a sua indumentária constituída sobretudo por peças Vitton.
            -Não, Leigh. Preciso mesmo de ir.
            Compreendo e aceno, dou uma passa, e fixo o olhar no seu. Preparo-me para que ele saia e tento imortalizar esta última ideia da sua silhueta junto à ombreira da porta, com o casaco ao ombro e o cabelo naturalmente despenteado. Torna-se desnecessário fazê-lo porque ele atira o sobretudo para o sofá e caminha na minha direcção com um sorriso convicto e com os dedos estendidos na direcção do cigarro de erva.
            -Que se lixe.


História de uma garrafa de whisky, conto 3: Jameson Irish Whisky 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ela levita, quase fada.



Abro-lhe a porta e espero que ela entre. O cabelo é alourado, de um tom quase esbranquiçado, místico; os olhos são negros e têm um brilho distante, fora deste mundo. Digo-lhe que não abriria a porta a ninguém àquelas horas, mas que o cheiro dela me levara a fazê-lo. Ela não sorri e entra. Segura nas mãos um livro que está repleto de anotações feitas a lápis, juntamente com as frases sublinhadas das quais essas anotações resultam. Diz-me que ouvira falar de mim e do meu quarto e que o quis ver de perto. Eu peço-lhe que se dispa e ela fá-lo. O seu corpo é magro, mas não excessivamente, a pele é de um tom muito claro, desbotado, mas mundano. Quando me aproximo e a beijo, ela diz-me que os meus lábios sabem bem, que o sabor do whisky é evidente. Depois volta a vestir-se e arrasta-se até à varanda. Diz-me que a noite é diáfana vista dali e eu pergunto-lhe o que quer dizer com aquilo. Diz-me que não tem a certeza, que o meu quarto se assemelha a um sonho. E depois ficamos a olhar para a lua, durante horas e horas, até ela desaparecer, sem proferir uma única palavra.




História de uma Garrafa de Whisky, Conto 1: Jack Daniels

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sax Play


-Não me puxem! Eiiiiiiiiiiiii

Os ilusionistas entretêm um público de espectadores esperançosos. As aparências desfazem-se pelo ar. Não aguento, rio-me de tudo. Não me puxem, elas agarram-me. 

Começa a sentir-se no estômago, uma espécie de previsão, forma-se, fermenta-se, intensifica-se e depois gira e ebole até chegar a um clímax tão alto e inalcançável que as lágrimas brotam-me dos olhos, pingam e desfazem-se pela cara, as notas soam a uma voz melindrada, É TÃOOOOO MAGNIFIIICO, sei que é esta a sinfonia que tenho de agarrar e trabalhar, piiiim piiim pimmmm Aaaaarghhhh. Pam. Tam. Yeah. La. Ta. Pum. Pum-rrrrrrrrrrrrrrr.

-Chorem! Chorem todos porque este som não vai voltar! É a sinfonia derradeira! Assemelha-se tudo a trabalho amador quando comparado com isto.

-És o máximo!

-Não me puxem! DEIXEM-ME TOCAR! QUERO TOCAAAAAR.

Às vezes assemelha-se a uma vida. Viver dentro da música. Sonhar durante o sono com uma ilusão que não é um delírio, nem uma alucinação mas que infortunadamente também não pertence à realidade. O que é que interessa além disso? A realidade enfadonha? Não há gatas, há mulheres. Não há mestres e génios, há artistas. Não há sinfonias, há músicas. Mas há…há um saxofone…


Conto 6: Ardberg, História de uma garrafa de whisky