-Tu e eu não temos esses problemas, gata, nós estamos sobre isso. Nós vamos a todo o lado e fazemos tudo. Nós somos imbatíveis. E sabes porquê? – inspiro outro longo trago do cigarro adulterado. Observo-o através de duas pupilas corrompidas e de duas pálpebras arroxeadas. Aguardo. – Porque podemos, babe, porque podemos.
O quarto torna-se subitamente púrpura e a claridade esvanece-se para fornecer lugar a um conjunto luminoso de trevas cuja sobriedade guarnecem o meu quarto de uma potencialidade altamente avassaladora. É tudo sombrio aqui dentro. O Figgy acaba de preparar o crack e estende-me o pipe para que seja eu a primeira a puxar um trago. O fumo corta-me a garganta e cuspo um bom pedaço de expectoração ensanguentada para o colchão negro onde estamos deitados e ao fim de alguns minutos é só mais uma nódoa que tinge o branco cal do nosso suporte de sono. O tronco trabalhado dele liberta um calor inodoro que se visualiza bem como o pó quase imperceptível que ondula no ar, só que agora são ambos perceptíveis devido à tonalidade de luzes que se insere no quarto e explode no ar escurecido. Tento alcançá-lo mas as distâncias que nos percorrem são desmesuradamente absurdas. Envolvida na dormência da droga e em toda uma condicionante que retrai as outras sensações primitivas que regulam os seres humanos decaio num sono imbecil e quase eterno nos braços de uma cama de colcha negra que se insere num quarto onde exclusivamente se realça um azul marinho proveniente das janelas mortiças.
-É o fim da festa, sabes? Isto é o fim da festa. – sussurro por entre a impenetrabilidade do quarto. Ouço-o arfar com a cabeça enterrada nos lençóis frescos. O quarto, em oposição é assombrado por um calor avassalador que provoca o derreter de várias parcelas. Move-se tudo aqui dentro. O meu peito que respira autonomamente, sente-se de um modo pesado e exterior ao restante corpo, numa dificuldade atroz de se suster.
Por Alicia em Suntory Yamazaki Single Malt Whisky
You have to ask yourself what brought the person to this point
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
whe-where is?
-Silencio-me quando falas sobre falhas de carácter e matuto sobre o significado verídico que se escondem por detrás desses dialectos. Não compreendo sobre o que falas. Não detecto as tuas falhas de carácter horrendas. Faz-me entender ao que te referes concretamente. Percorres o espaço vazio que nos separa disparatadamente. Os opostos do quarto parecem incrivelmente longe. Tens cabelos curtos que começam a crescer com uma facilidade visível. Tens a pele hirta e flagelada pelo frio mas arrastaste-te em pesadas afastadas e determinadas. Explica-me.
-O que se me explode dentro da razão rapidamente se silencia e é árduo voltar a pedir-lhes que falem. Não encontro frases e segmentos que explicitem o que pretendo dizer. É tão difícil fazer-me falar que compreendo agora a incapacidade de assimilar a causa humana, a causa do que nos alimenta. Gostava que também visualizasses a perspectiva do meu ponto de vista, que fosses concretamente menos objectivo. Abstrai-te. Deixa-me, pelo menos, mostrar-te.
-É inútil complicares o só te fará sofrer ainda mais, digo e bebo o uísque que ainda à pouco iniciara. É meia noite, as badaladas ouvem-se novamente, afinal já é meia noite e um quarto. Ela observa-me com olhos deslumbrados mas que em nada se livram da sua obstinação. Os dedos tremem-lhe enquanto segura o cigarro e o leva aos lábios soprando daquele fumo. Vejo-a frágil e efémera. O cabelo. Os olhos ruby. Os dedos que lhe tremem nas mãos…só te fará sofrer ainda mais.
-Dizes-me que é inútil complicar, que é inútil o irracionalismo, que me magoa ainda mais. Mas não fazes ideia do que é que me magoa realmente. Edimburgo distende-se no nosso quarto e começo já a ouvir as sonoridades dos elementos que ainda há pouco referenciavas. Já me baloiço neles, já preciso da sua essência, já não quero fechar a janela. Batuco com os dedos nos joelhos e giro-os em toques repetidos e consecutivos. Pulsa-me a música através dos membros. Integro-me no que se encontra disperso fora do quarto. Dentro do quarto. Bebes o uísque e observas-me enquanto fumo passivamente. É inútil não complicares. É inútil a tua racionalização. Abres a boca mas calo-te com um simples alçar da mão.
História de uma Garrafa de Whisky, Conto 5: Laphroiag
-O que se me explode dentro da razão rapidamente se silencia e é árduo voltar a pedir-lhes que falem. Não encontro frases e segmentos que explicitem o que pretendo dizer. É tão difícil fazer-me falar que compreendo agora a incapacidade de assimilar a causa humana, a causa do que nos alimenta. Gostava que também visualizasses a perspectiva do meu ponto de vista, que fosses concretamente menos objectivo. Abstrai-te. Deixa-me, pelo menos, mostrar-te.
-É inútil complicares o só te fará sofrer ainda mais, digo e bebo o uísque que ainda à pouco iniciara. É meia noite, as badaladas ouvem-se novamente, afinal já é meia noite e um quarto. Ela observa-me com olhos deslumbrados mas que em nada se livram da sua obstinação. Os dedos tremem-lhe enquanto segura o cigarro e o leva aos lábios soprando daquele fumo. Vejo-a frágil e efémera. O cabelo. Os olhos ruby. Os dedos que lhe tremem nas mãos…só te fará sofrer ainda mais.
-Dizes-me que é inútil complicar, que é inútil o irracionalismo, que me magoa ainda mais. Mas não fazes ideia do que é que me magoa realmente. Edimburgo distende-se no nosso quarto e começo já a ouvir as sonoridades dos elementos que ainda há pouco referenciavas. Já me baloiço neles, já preciso da sua essência, já não quero fechar a janela. Batuco com os dedos nos joelhos e giro-os em toques repetidos e consecutivos. Pulsa-me a música através dos membros. Integro-me no que se encontra disperso fora do quarto. Dentro do quarto. Bebes o uísque e observas-me enquanto fumo passivamente. É inútil não complicares. É inútil a tua racionalização. Abres a boca mas calo-te com um simples alçar da mão.
História de uma Garrafa de Whisky, Conto 5: Laphroiag
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Denota um comportamento narcisista...Isto é…adopta uma postura egoísta e egocêntrica ou chega a preocupar-se com os sentimentos e as necessidades do seu parceiro?
A loira levanta-se e vejo as nódoas negras que lhe tingem as pernas. Caminha na direcção da cama e sobe novamente para os lençóis da perdição recomeçando com as carícias de um animal insaciado e indistinto. A sua preferência pelo Figgy é claramente notável mas afinal acaba por não me aborrecer porque tudo o resto é chato e enfadonho e deixo de me vir com determinação. Os orgasmos após esses são tão ligeiros, tão indiferentes que saio do quarto com uma sensação que não se despega do corpo e a malícia sobe-me até ao peito enquanto atravesso a cozinha enegrecida e sinto o anseio novamente agitar-se mas a advertência impede-me de regressar ao quarto. Arrasto-me até à casa de banho, latejando e, enfraquecida, afundo-me no chuveiro de água quente onde o meu corpo se reflecte nos espelhos altos arrumados em minha frente. E é tão intenso e exagerado o suor que me escorre do corpo, que me inunda as mãos e as cavidades ósseas e mais resguardadas do físico – que já não me pertence – e que me implora para que o coma e, não sei se é a minha imaginação, mas o coração que pertence ao corpo ouve-se palpitar longe do mesmo, fora, ausente, domável, dominante. A energia regressa e sinto-me subitamente tão capaz, tão possuidora, com uma permanência que dura…para sempre. E tenho a certeza que é necessário tocar-lhe mas receio o toque, com tanta relutância que arrasto primeiro os dedos amenos pelos braços esguios e as pernas estremecem, num vibrar tão patente e veemente, que sinto que não serei capaz de o suportar, nem durante mais um segundo, mas a sensação é… para sempre… E finalmente vou tocando, primeiro muito docemente, com uma suavidade excitante, ahhhh, o peito pulsa e os mamilos esfregam-se pelas mãos e observo o corpo, o suor que persiste em correr. Não ligo a água, deixo-o escorrer e fundir-se com a evidência mais clara dessa excitação e subitamente experimento tudo, as memórias atacam-me e explodem dentro de mim, do corpo, fora, em todo o lado e conectam-se ao estado de tempo, à ausência espacial, à despersonalização do meu ser e os gemidos dos outros dois corpos menos capazes que se completam num vai e vem continuo do quarto do lado, mas tão estupidamente insignificante quando comparado a esta latência passiva que é tão mais orgásmica e finalmente toco lá, no grelo de onde as palpitações fluem e se propagam e eu venho-me… A água corre, o suor escorre, os orgasmos aniquilam-me e essa sensação.. bem essa sensação dura… para sempre.
Por Alicia, História de uma Garrafa de whisky (Conto 7: Suntory Yamazaki Single Malt Whisky)
Por Alicia, História de uma Garrafa de whisky (Conto 7: Suntory Yamazaki Single Malt Whisky)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
The malt that sweetly whacks you.
-Um. Dois…
PAM.PAM.PAM.PAM. Acorde baixo. Entra o Charlie no contrabaixo. Tam tam tam taaammmm. James na bateria. Sete. Sete. Sete. Inspiro fundo. Levo-lhe os lábios. Aaaaarghhhh. Pam. Tam. Yeah. La. Ta. Pum. Pum-rrrrrrrrrrrrrrr.
-O Steve no sax.
Aplaudem. Uuuuuuuhhhhhh, ressoa na multidão que me observa. Chega, aproximo-me. Sete. Sete. Cerro os olhos. Arghhhhhhhh. Já não sei o que toco.
- O Steve no sax…
-Eu sei, ele é óptimo.
-Fantástico.
-Porra, que qualidade.
-Yeah.
As cabeças fluem ao som do batuque.
-É….é….
-Formidável.
-Porra, é formidável.
-Que qualidade.
-É Nova Iorque, Manhattan, Milão, Paris. Sabes?
-Já fomos a todo o lado, baby.
-Ui.
-És uma cadela querida.
-Ohhh, que modéstia.
-Hey!
Sete. Sete. Seis- Paaaaaaaammmmmmmm. Yeah. Tam. Tam. Tam. La la la la la ta ta ta ta ta.
-Munique, Bruxelas, Londres, Edimburgo. Argentina!
-Agora querem levá-los à Argentina.
-O quê?!
-Querida, és uma cadela.
-Oh, Steve…
-Diz, querida.
-Sete. Sete.
-Formidável.
-Steve no sax.
-Que qualidade.
Apaixono-me pelas notas. Os batuques. As cabeças.
-Sim, eu sei, fui mazinha.
-Mazinha? Foste uma cadela.
Rimos.
-Tens a sensibilidade de um artista.
-Whaaaat?
-Não tenho sensibilidade, baby, sou um filho da puta.
-Faz de mim tua.
-Minha quê?
-Puta.
Ohhhhhhhhhhhh.
-yeah.
-Charlie no contrabaixo!
Aplaudem. Um ressoar uníssono de palmas.
-James na bateria!
Da próxima vez trago o piano. Uhhhhhh. Tam Tam pa pa pa pa pa pa. Fervem-me os olhos, enlaivam-se-me os lábios.
-Não devias estar seco, meu?
-Hum? Hum?
Pam pam pam pam pam.
-E Steve no sax!
Uuuuuhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Cessa. Abro os olhos. Especulam-me de lábios sorridentes. Desço do palco e escolho uma morena de pernas altas que levo para dar uma volta comigo aos bastidores.
-Vou mostrar-lhe o backstage. Onde se ensaia.
-Ahahahahahahahaha.
-Steeveeeeee – geme ela quando lhe aprumo o vestido.
-Tens razão, nem é preciso, ele já é curto.
-Ahah, Steeveee – só que repentinamente se torna num – Oh, Steve, Steve, Steve, Steve….aahhhh.
-Despe-te.
-O quê?
-Despe-te – Ela despe. O vestido e tudo.
-STEVE! STEVE! STEVE!
-Tenho de voltar, querida. – Mexo-lhe nas mamas com as mãos.
-Oh, não, não. Fiiiicaaaa.
-STEVE! STEVE! STEVE!
-Eu fico, eu fico.
-STEVE!STEVE!STEVE!
-Ficaaaaa.
-Eu fico.
-STEVE! STEVE! STEVE!!!!
-Preciso de ir. Adeus, querida.
-Nãooo. – faz beicinho. Chupo-lhe o lábio.
-STEVE! STEVE! STEVE!
-Então, pá? Steve, pá! Anda lá!
-Preciso de ir, baby.
-Porquê? Porque é que não ficas comigo?
-Sossega… eu volto.
Corro a apanhar o sax.
-Ah… Steve…
-Hm-hm!
-És lindo a tocar o sax.
Chupo-lhe o lábio.
-Eu sei. – e regresso.
História de uma Garrafa de Whisky (conto 6: Ardberg)
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
bum!bum!bum!
É tudo um resumo de dados mundanos e indispensáveis. E eu estou tão agarrada a esta casa por tua causa. Há tanta história ingressada nas paredes. Encho-me de emoção quando percorro as suas divisórias, enquanto te escrevo isto, enquanto me masturbo na sequência das frases que mais entenderás. Faço-o mesmo. O meu cheiro irá envolto no papel e eu quero que escrevas sobre isso. Quero que me escrevas o corpo outra vez e que comas as palavras. Que te posiciones bem no centro do mundo e que o agarres com as mãos cheias. Que adores o sitio onde vives. Que ultrapasses a dicotomia racional e impulsiva. É tudo uma treta desmesurada. Não há dicotomias. Não há palavras, nem sentidos, nem conotações. Éramos animais a alimentar os nossos instintos com recursos fortes. Esgotou-se. Não compreendo o que se terá esgotado mas conjecturo a penúria dele. É que agora sobraram-me as rotinas vazias no consultório da Drª e ela não compreende nada do que eu digo. Eu e ela somos dois animais a latir face um ao outro, em vagidos divergentes. Nós ladrávamos da mesma forma, se é que me entendes. Nós éramos pura zoologia.
Vagueio pelas ruas desta cidade vazia e exibicionista e encontro os teus vestígios nas casas que passo. As palavras fogem-me da boca e o monólogo é tão insofismável e cansativo. Cuspo tudo com uma crueldade e uma certeza monótona e a cidade gira em meu redor, espalha-se nesse bolço que se brande no espaço infalível do ar e explode-me tudo diante da cara, as lágrimas rompem-me até aos dedos e não as aparo, não aparo nada; o ar sente-se bombástico nos pulmões, a correr-me nas veias, a rebentar-me os neurónios lentamente, com um aprazimento de maluco; É um clímax do ambiente e eu persisto em falar, as palavras continuam a ser respiradas e alimentadas e tudo se sustem no centro de mim, um ponto que eu custo a deparar no corpo porque está tudo a borbulhar tão freneticamente, num batuque tão insuportável e eu imploro para que cesse mas ao fim de algum tempo já só sei o que significa desarticular o mundo que me corrompe e me esvazia e tudo o que outrora se acumulava e me emocionava está agora disperso no espaço ornado em minha volta e os teus indícios também estão lá porque sei que fizeste exactamente o mesmo e agora estamos configurados neste funcionamento mecânico do mundo com um sentido de inconsciência tremendamente deslumbrante e continuo a cuspir palavras com uma veemência interminável e sinto o clímax aproximar-me novamente, desta vez fatal, os olhos reviram-se e o panorama é já tão embusteado, "está tudo na sua cabeça, está tudo na sua cabeça, concentre-se na realidade perceptível, o resto é ficção" o resto é ficção, ficção, ficção, sinto que posso alterar tudo com o escrevinhar de três ou quatro dialectos, já nem me sinto fundir com nada, flui-me tudo pela língua, pelos olhos, pelo simples acto de respirar, as palavras cavam-se da boca – bum!bum!bum! – mantêm-me acordada toda a noite, a vaguear num espaço interminável de incompatibilidade onde os nossos caracteres não se cruzam e não se encaixam e não fazem sentido e são ridiculamente dispersos pelas outras evidencias da autoria de alguém que não está a fluir em mim e sinto a tesão subir-me pelas pernas e pelo sexo, até aos braços, até aos dedos, até aos olhos, pelo ar que respiro, exalado depois nas palavras que profiro e já não sei como metabolizá-lo e ele é directamente exalado pelos meus poros e o suor escorre-me do corpo e inunda-me o sangue e as orelhas e sinto novamente o esgar da boca formar-se e tento apará-lo, concentrar-me, controlar-me, deixá-lo permanecer cerrado mas ele cospe-se sozinho e – bum! Bum! Bum! – sai tudo outra vez, para o ar, dissipa-se e volta, arghhhhhhhh, outro esgar repentino e muito descomedido, repleto de autenticidade, de inépcia, de inexorabilidade e já me dói falar, o maxilar move-se já lentamente, com um padecimento duro e seco, com uma articulação velha e oxidada que em muito me recorda a tua escrita profissional e atordoante, que irreversivelmente se funde nesta eclosão dos factores que pingam já no chão, esquentados por uma energia insondável e vai-se tudo cogitando na minha traqueia, vai-se tudo evaporando do meu ser, vai-se tudo contaminando no ar, vai-se tudo…. Arghhh… bang! – saem num esgar imparável de comprido infindável e peço que me silencies. Por favor, silencia-me porque começa tudo a sentir-se demasiado.
de História de uma Garrafa de Whisky, conto: Ballantines
Vagueio pelas ruas desta cidade vazia e exibicionista e encontro os teus vestígios nas casas que passo. As palavras fogem-me da boca e o monólogo é tão insofismável e cansativo. Cuspo tudo com uma crueldade e uma certeza monótona e a cidade gira em meu redor, espalha-se nesse bolço que se brande no espaço infalível do ar e explode-me tudo diante da cara, as lágrimas rompem-me até aos dedos e não as aparo, não aparo nada; o ar sente-se bombástico nos pulmões, a correr-me nas veias, a rebentar-me os neurónios lentamente, com um aprazimento de maluco; É um clímax do ambiente e eu persisto em falar, as palavras continuam a ser respiradas e alimentadas e tudo se sustem no centro de mim, um ponto que eu custo a deparar no corpo porque está tudo a borbulhar tão freneticamente, num batuque tão insuportável e eu imploro para que cesse mas ao fim de algum tempo já só sei o que significa desarticular o mundo que me corrompe e me esvazia e tudo o que outrora se acumulava e me emocionava está agora disperso no espaço ornado em minha volta e os teus indícios também estão lá porque sei que fizeste exactamente o mesmo e agora estamos configurados neste funcionamento mecânico do mundo com um sentido de inconsciência tremendamente deslumbrante e continuo a cuspir palavras com uma veemência interminável e sinto o clímax aproximar-me novamente, desta vez fatal, os olhos reviram-se e o panorama é já tão embusteado, "está tudo na sua cabeça, está tudo na sua cabeça, concentre-se na realidade perceptível, o resto é ficção" o resto é ficção, ficção, ficção, sinto que posso alterar tudo com o escrevinhar de três ou quatro dialectos, já nem me sinto fundir com nada, flui-me tudo pela língua, pelos olhos, pelo simples acto de respirar, as palavras cavam-se da boca – bum!bum!bum! – mantêm-me acordada toda a noite, a vaguear num espaço interminável de incompatibilidade onde os nossos caracteres não se cruzam e não se encaixam e não fazem sentido e são ridiculamente dispersos pelas outras evidencias da autoria de alguém que não está a fluir em mim e sinto a tesão subir-me pelas pernas e pelo sexo, até aos braços, até aos dedos, até aos olhos, pelo ar que respiro, exalado depois nas palavras que profiro e já não sei como metabolizá-lo e ele é directamente exalado pelos meus poros e o suor escorre-me do corpo e inunda-me o sangue e as orelhas e sinto novamente o esgar da boca formar-se e tento apará-lo, concentrar-me, controlar-me, deixá-lo permanecer cerrado mas ele cospe-se sozinho e – bum! Bum! Bum! – sai tudo outra vez, para o ar, dissipa-se e volta, arghhhhhhhh, outro esgar repentino e muito descomedido, repleto de autenticidade, de inépcia, de inexorabilidade e já me dói falar, o maxilar move-se já lentamente, com um padecimento duro e seco, com uma articulação velha e oxidada que em muito me recorda a tua escrita profissional e atordoante, que irreversivelmente se funde nesta eclosão dos factores que pingam já no chão, esquentados por uma energia insondável e vai-se tudo cogitando na minha traqueia, vai-se tudo evaporando do meu ser, vai-se tudo contaminando no ar, vai-se tudo…. Arghhh… bang! – saem num esgar imparável de comprido infindável e peço que me silencies. Por favor, silencia-me porque começa tudo a sentir-se demasiado.
de História de uma Garrafa de Whisky, conto: Ballantines
terça-feira, 27 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
O pé da Lolita
O pai observa-a pela faixa de luz da porta do quarto, com os olhos consumidos por tal visão. Vê o modo como o verniz se apodera da unha total e a torna vermelha, exactamente da cor com que os seus lábios são pintados mais tarde. Ele sabe que ela não se apercebeu da sua presença e delira pelo facto de estar ali, sem ter de estar ali. O seu robe de cetim laranja e creme roça-lhe na coxa de pele macia e a luz incide sobre as madeixas loiras do seu cabelo grisalho. Os olhos também parecem luminosos, mais verdes, mais apaixonados. Mas é nesse pé, é nesse pé que se centra toda a beleza. Nesse pé em que o vermelho se apodera das unhas, nesse pé que subindo dá origem a uma perna, de musculo firme e a pele suavemente bronzeada. Nem ele sabe se tem a ver com o vermelho do verniz, ou se se trata da forma gentil do pé, mas algo o seduz imensamente. "Nesse pé de princesa onde tu pintas, o vermelho nas unhas, e a tristeza" Ele sente a tentação proveniente da imagem que observa minuciosamente e afasta-se da porta do quarto e dos perfumes doces que daí emanam. Avança até ao bar da casa e serve um whisky com gelo, acende um cigarro e abre as duas portadas da varanda. As lufadas de ar fresco entram e elucidam-lhe a cabeça. Têm consciência de estar mais calmo, menos viciado nos pés de menina que ela ainda é, no cheiro do seu perfume doce, na forma perfeita e rigorosa dos seus pequenos pés. "Saio p'rà rua a respirar os ácidos, perfumes e solto-me, mesquinho, já de ti!" Bebe do whisky e fuma o cigarro quando um ruído forte o faz voltar a cabeça. É quando a vê, unicamente de roupão, com o cabelo loiro e as unhas vermelhas a secar. Passa pelo corredor e sorri-lhe envergonhadamente, dirigindo-se de seguida à cozinha para preparar um chá de frutos vermelhos. Novamente imagens fortes lhe invadem a mente, imagens dela, nesse mesmo roupão, com certas partes do corpo a descoberto, com as maçãs do rosto rosáceas, o olhar inebriado nessa manhã de calor. Depois, o cheiro do verniz a secar apodera-se do salão e ele delira. Vê-se forçado a fechar os olhos e inspirá-lo com exacta precisão. Quando os abre, depara-se com ela especada, bem à sua frente, com os olhos postos no seu ar de infame prazer. A sua pequena boca aberta num círculo fecha-se rapidamente e mantém uma expressão rígida e tentadora, como apenas ela sabe fazer. Avança entre ziguezagues para o pai apaixonado e estende-lhe o pé de unhas pintadas ainda frescas aguardando prova de tal desejo. O pai fita-a e endoidece. Num impulso exagerado, coloca-se de joelhos e beija-lhe o pé, apaixonado. O cheiro da sua pele macia e doce invade-lhe os orgãos, torna-se a única coisa que ele poderá cheirar durante dias. Depois, apercebendo-se do quanto ferozmente lhe agarra e beija o pé larga-o, de repente. As marcas dos dedos vão-se evaporando com o tempo. Fitam-se durante momentos. A filha afasta-se e vira-lhe as costas. O pé tem ainda as marcas dos dedos do pai, o robe abana com o vento que entra da janela. Um desejo cresce dentro do pai. "Nesse pé de princesa que eu beijei." Acabou-se. Deixa-se cair para o sofá e pensa no que acabou de cometer. Incesto. Sente a vontade incontrolável de chorar e beber mais whisky. Viverá para sempre sozinho neste salão, para todo o sempre, com perfumes doces a passaram constantemente ao seu lado, com o cheiro dos frutos vermelhos ainda quentes, com o verniz a secar. E, novamente, com a memória de um outro beijo no pé, nunca ultrapassariam tal acção. "E nas cinzas, o desejo sabe arder. Nesse pé de princesa das Astúrias, crescem às vezes acordes de samba." Era assim, amor deste, entre pai e filha, amor de beijar o pé, amor de amar o pé.
Nesse pé..., 2008, intercalado com excertos do livro A Noiva das Astúrias de Eduardo Guerra Carneiro
Nesse pé..., 2008, intercalado com excertos do livro A Noiva das Astúrias de Eduardo Guerra Carneiro
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