É tudo um resumo de dados mundanos e indispensáveis. E eu estou tão agarrada a esta casa por tua causa. Há tanta história ingressada nas paredes. Encho-me de emoção quando percorro as suas divisórias, enquanto te escrevo isto, enquanto me masturbo na sequência das frases que mais entenderás. Faço-o mesmo. O meu cheiro irá envolto no papel e eu quero que escrevas sobre isso. Quero que me escrevas o corpo outra vez e que comas as palavras. Que te posiciones bem no centro do mundo e que o agarres com as mãos cheias. Que adores o sitio onde vives. Que ultrapasses a dicotomia racional e impulsiva. É tudo uma treta desmesurada. Não há dicotomias. Não há palavras, nem sentidos, nem conotações. Éramos animais a alimentar os nossos instintos com recursos fortes. Esgotou-se. Não compreendo o que se terá esgotado mas conjecturo a penúria dele. É que agora sobraram-me as rotinas vazias no consultório da Drª e ela não compreende nada do que eu digo. Eu e ela somos dois animais a latir face um ao outro, em vagidos divergentes. Nós ladrávamos da mesma forma, se é que me entendes. Nós éramos pura zoologia.
Vagueio pelas ruas desta cidade vazia e exibicionista e encontro os teus vestígios nas casas que passo. As palavras fogem-me da boca e o monólogo é tão insofismável e cansativo. Cuspo tudo com uma crueldade e uma certeza monótona e a cidade gira em meu redor, espalha-se nesse bolço que se brande no espaço infalível do ar e explode-me tudo diante da cara, as lágrimas rompem-me até aos dedos e não as aparo, não aparo nada; o ar sente-se bombástico nos pulmões, a correr-me nas veias, a rebentar-me os neurónios lentamente, com um aprazimento de maluco; É um clímax do ambiente e eu persisto em falar, as palavras continuam a ser respiradas e alimentadas e tudo se sustem no centro de mim, um ponto que eu custo a deparar no corpo porque está tudo a borbulhar tão freneticamente, num batuque tão insuportável e eu imploro para que cesse mas ao fim de algum tempo já só sei o que significa desarticular o mundo que me corrompe e me esvazia e tudo o que outrora se acumulava e me emocionava está agora disperso no espaço ornado em minha volta e os teus indícios também estão lá porque sei que fizeste exactamente o mesmo e agora estamos configurados neste funcionamento mecânico do mundo com um sentido de inconsciência tremendamente deslumbrante e continuo a cuspir palavras com uma veemência interminável e sinto o clímax aproximar-me novamente, desta vez fatal, os olhos reviram-se e o panorama é já tão embusteado, "está tudo na sua cabeça, está tudo na sua cabeça, concentre-se na realidade perceptível, o resto é ficção" o resto é ficção, ficção, ficção, sinto que posso alterar tudo com o escrevinhar de três ou quatro dialectos, já nem me sinto fundir com nada, flui-me tudo pela língua, pelos olhos, pelo simples acto de respirar, as palavras cavam-se da boca – bum!bum!bum! – mantêm-me acordada toda a noite, a vaguear num espaço interminável de incompatibilidade onde os nossos caracteres não se cruzam e não se encaixam e não fazem sentido e são ridiculamente dispersos pelas outras evidencias da autoria de alguém que não está a fluir em mim e sinto a tesão subir-me pelas pernas e pelo sexo, até aos braços, até aos dedos, até aos olhos, pelo ar que respiro, exalado depois nas palavras que profiro e já não sei como metabolizá-lo e ele é directamente exalado pelos meus poros e o suor escorre-me do corpo e inunda-me o sangue e as orelhas e sinto novamente o esgar da boca formar-se e tento apará-lo, concentrar-me, controlar-me, deixá-lo permanecer cerrado mas ele cospe-se sozinho e – bum! Bum! Bum! – sai tudo outra vez, para o ar, dissipa-se e volta, arghhhhhhhh, outro esgar repentino e muito descomedido, repleto de autenticidade, de inépcia, de inexorabilidade e já me dói falar, o maxilar move-se já lentamente, com um padecimento duro e seco, com uma articulação velha e oxidada que em muito me recorda a tua escrita profissional e atordoante, que irreversivelmente se funde nesta eclosão dos factores que pingam já no chão, esquentados por uma energia insondável e vai-se tudo cogitando na minha traqueia, vai-se tudo evaporando do meu ser, vai-se tudo contaminando no ar, vai-se tudo…. Arghhh… bang! – saem num esgar imparável de comprido infindável e peço que me silencies. Por favor, silencia-me porque começa tudo a sentir-se demasiado.
de História de uma Garrafa de Whisky, conto: Ballantines
You have to ask yourself what brought the person to this point
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
O pé da Lolita
O pai observa-a pela faixa de luz da porta do quarto, com os olhos consumidos por tal visão. Vê o modo como o verniz se apodera da unha total e a torna vermelha, exactamente da cor com que os seus lábios são pintados mais tarde. Ele sabe que ela não se apercebeu da sua presença e delira pelo facto de estar ali, sem ter de estar ali. O seu robe de cetim laranja e creme roça-lhe na coxa de pele macia e a luz incide sobre as madeixas loiras do seu cabelo grisalho. Os olhos também parecem luminosos, mais verdes, mais apaixonados. Mas é nesse pé, é nesse pé que se centra toda a beleza. Nesse pé em que o vermelho se apodera das unhas, nesse pé que subindo dá origem a uma perna, de musculo firme e a pele suavemente bronzeada. Nem ele sabe se tem a ver com o vermelho do verniz, ou se se trata da forma gentil do pé, mas algo o seduz imensamente. "Nesse pé de princesa onde tu pintas, o vermelho nas unhas, e a tristeza" Ele sente a tentação proveniente da imagem que observa minuciosamente e afasta-se da porta do quarto e dos perfumes doces que daí emanam. Avança até ao bar da casa e serve um whisky com gelo, acende um cigarro e abre as duas portadas da varanda. As lufadas de ar fresco entram e elucidam-lhe a cabeça. Têm consciência de estar mais calmo, menos viciado nos pés de menina que ela ainda é, no cheiro do seu perfume doce, na forma perfeita e rigorosa dos seus pequenos pés. "Saio p'rà rua a respirar os ácidos, perfumes e solto-me, mesquinho, já de ti!" Bebe do whisky e fuma o cigarro quando um ruído forte o faz voltar a cabeça. É quando a vê, unicamente de roupão, com o cabelo loiro e as unhas vermelhas a secar. Passa pelo corredor e sorri-lhe envergonhadamente, dirigindo-se de seguida à cozinha para preparar um chá de frutos vermelhos. Novamente imagens fortes lhe invadem a mente, imagens dela, nesse mesmo roupão, com certas partes do corpo a descoberto, com as maçãs do rosto rosáceas, o olhar inebriado nessa manhã de calor. Depois, o cheiro do verniz a secar apodera-se do salão e ele delira. Vê-se forçado a fechar os olhos e inspirá-lo com exacta precisão. Quando os abre, depara-se com ela especada, bem à sua frente, com os olhos postos no seu ar de infame prazer. A sua pequena boca aberta num círculo fecha-se rapidamente e mantém uma expressão rígida e tentadora, como apenas ela sabe fazer. Avança entre ziguezagues para o pai apaixonado e estende-lhe o pé de unhas pintadas ainda frescas aguardando prova de tal desejo. O pai fita-a e endoidece. Num impulso exagerado, coloca-se de joelhos e beija-lhe o pé, apaixonado. O cheiro da sua pele macia e doce invade-lhe os orgãos, torna-se a única coisa que ele poderá cheirar durante dias. Depois, apercebendo-se do quanto ferozmente lhe agarra e beija o pé larga-o, de repente. As marcas dos dedos vão-se evaporando com o tempo. Fitam-se durante momentos. A filha afasta-se e vira-lhe as costas. O pé tem ainda as marcas dos dedos do pai, o robe abana com o vento que entra da janela. Um desejo cresce dentro do pai. "Nesse pé de princesa que eu beijei." Acabou-se. Deixa-se cair para o sofá e pensa no que acabou de cometer. Incesto. Sente a vontade incontrolável de chorar e beber mais whisky. Viverá para sempre sozinho neste salão, para todo o sempre, com perfumes doces a passaram constantemente ao seu lado, com o cheiro dos frutos vermelhos ainda quentes, com o verniz a secar. E, novamente, com a memória de um outro beijo no pé, nunca ultrapassariam tal acção. "E nas cinzas, o desejo sabe arder. Nesse pé de princesa das Astúrias, crescem às vezes acordes de samba." Era assim, amor deste, entre pai e filha, amor de beijar o pé, amor de amar o pé.
Nesse pé..., 2008, intercalado com excertos do livro A Noiva das Astúrias de Eduardo Guerra Carneiro
Nesse pé..., 2008, intercalado com excertos do livro A Noiva das Astúrias de Eduardo Guerra Carneiro
domingo, 7 de março de 2010
Need a Doctor?
Mas a droga devia ser demasiado pura porque não me recordo de quando me puxou para outra sala, onde me arrancou as roupas e me encheu de whisky e linhas, bebendo-o e cheirando-as num frenesim louco. Arrancou-me a blusa do corpo e puxou-me as calças com tamanha força que os seus dedos brutos ficaram vincados nas minhas coxas e abdominais. Depois abriu-me as pernas e mordeu-me as virilhas enquanto deitava coca por cima do meu clítoris e o lambia desvairadamente. No peito, em cima dos mamilos, deitou a quantidade de whisky que achou possível derramar e lambeu-o tão bem que quando regressei a casa o cheiro da sua boca estava espalhado por todo o corpo assim como as marcas de dentadas de tonalidade vermelha que frisavam o rosa salmão dos meus mamilos. Certas zonas do meu corpo, desgastou-as tanto que o sangue escorria em grandes camadas, inundando a superfície dura onde o meu rabo estava assente. Poderia ter durado horas e horas, porque a moca era tão grande e a dor tão aguda que entrava em orgasmos repetidamente. O Doutor sempre foi extremamente profissional e eficiente com os seus pacientes. Depois de me ter lambido e consumido pediu-me delicadamente que me virasse de costas para que prosseguisse com a inspecção física. Afastou-me as nádegas e introduziu dois dedos no recto enquanto me lambia languidamente o ouvido e me dava leves mordidelas pela coluna. Certa parte do ombro arrancou-ma com os dentes e trincou-a até a engolir, vindo-se quase simultaneamente ao meu lado. Agitou-me pelos ombros, sentou-me na cadeira e piscou-me o olho, de onde escorriam espessas lágrimas que fluíam com o sangue que jorrava da boca.
-Continuas perfeita, querida. Irrepreensível. Nunca me apareceu ninguém como tu, é bastante interessante. Estás óptima. E vamos manter o tratamento, pelo menos durante mais alguns meses. Volta daqui a relativamente pouco tempo para eu poder observar tudo novamente e garantir que não surgiu nenhuma complicação maior.
-Obrigada, Doutor. – respondi bastante austera ao que ele sorriu.
-Tens aqui a medicação, não te vou passar receita desta vez. – diz, entregando-me um pequeno saco transparente cheio de pó branco. – alguma dúvida telefonas-me.
Olho para ele uma vez mais e levanto-me, deixando o corpo descair numa dor forte. Avanço até à porta mas a sua voz faz-me parar, volto-me para trás.
-Oh, e Alicia – diz, enquanto observa as folhas pousadas na secretária à sua frente, voltando novamente o olhar frio para mim. – Pede um chupa-chupa na saída, sabes que eu preocupo-me sempre com os meus pacientes especiais.
Por Alicia em As duas invenções do pornógrafo Loy - 2010
-Continuas perfeita, querida. Irrepreensível. Nunca me apareceu ninguém como tu, é bastante interessante. Estás óptima. E vamos manter o tratamento, pelo menos durante mais alguns meses. Volta daqui a relativamente pouco tempo para eu poder observar tudo novamente e garantir que não surgiu nenhuma complicação maior.
-Obrigada, Doutor. – respondi bastante austera ao que ele sorriu.
-Tens aqui a medicação, não te vou passar receita desta vez. – diz, entregando-me um pequeno saco transparente cheio de pó branco. – alguma dúvida telefonas-me.
Olho para ele uma vez mais e levanto-me, deixando o corpo descair numa dor forte. Avanço até à porta mas a sua voz faz-me parar, volto-me para trás.
-Oh, e Alicia – diz, enquanto observa as folhas pousadas na secretária à sua frente, voltando novamente o olhar frio para mim. – Pede um chupa-chupa na saída, sabes que eu preocupo-me sempre com os meus pacientes especiais.
Por Alicia em As duas invenções do pornógrafo Loy - 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
All tomorrow dinners
-Bem, acho que vou buscar o gelado. – diz a Ana.
-Ana estás muito bem. - diz o Johnny focando o olhar sério e doente na silhueta da Ana.
-Desculpa?
-Sim, caralho... Não te faças de desentendida... Estás boa!
-Hum, bem obrigada, Johnny.
-Oh, qual obrigada qual quê. Ainda andas com o larilas do Darwin?
-Larilas?
-Sim pá, toda a gente sabe.
-Toda a gente sabe do quê?
-Toda a gente sabe do que se passou!
-Do que se passou? - a Ana parece mesmo não estar a pescar nada do que ele diz. - Estás a falar do quê, Johnny?
-Oh, foda-se. Tu sabes!
-Não, não sei!
-Que o papá dele lhe foi ao cuzinho. – A Ana olha ferozmente para o Ruben que abana a cabeça negativamente. Parece que não foi ele.
-Isso não é verdade. - desculpa ela.
-Caralho, Ana. CLARO QUE É VERDADE. Não me digas que nunca te apercebestes. As camisas aos quadrados, o sotaque…
-Ele é holandês…
-Merda pá, o que é que isso tem a ver? O que eu acho é que não devias perder tempo com esse gajo. Podes ter qualquer rapaz que queiras.
-Vê lá se não a queres violar ali no quarto de cima. – diz a Trevo num tom de voz infantilizado e irritante. A Ana abre os olhos perplexa. Eu estou a mijar-me a rir, mas continuo a esforçar-me para não o demonstrar. Caralho, que jantar!
-E que tal se te metesses na tua vidinha…– berra ele.
-Bem, eu vou buscar o gelado… - diz a Ana novamente.
-Então e tu Patrícia? Ainda não te ouvi dizer nada esta noite. Deves estar enfrascadíssima em whisky. – a Ana levanta uma sobrancelha. Esta conversa está a ser interessante para todos.
-Eu?
-Sim, pá. Quem é que é o tipo que andas a papar agora?
-Bem, não tenho um relacionamento estabelecido agora. – Estabelecido não consta no dicionário de bolso dele. – Não ando a papar ninguém agora.
-Ah! Gostas de foder uns e outros, não?
-Sim, exactamente isso! – diz o Daddy. Filho da puta.
-É, eu também não tenho nada sério agora. – A Trevo levanta os olhos e fita-o desesperadamente. O namorodo deles acabou de ser rebaixado à condição de "nada sério" em frente a um grupo de agarrados. Acho que se começa a aperceber do que é que aquela maça cinzenta cerebral é feita. – Um gajo precisa de se abrir de vez em quando.
-Então e à bocado acabaste por conseguir dormir alguma coisa de jeito? – pergunta-me finalmente o Jimmy. -Epá não. A Ana resolveu despachar uma garrafa de vodka e foder-me os cornos. – As atenções centram-se na Ana que me abre os olhos ofendida. Estou-me a cagar, vou prosseguir. – Oh, mas eu já estou habituada. Quando não me esgravata a porta põe-se com aquela merda barulhenta no quarto.
-Que merda barulhenta? – pergunta o Daddy, desejoso de ter qualquer assunto de que ele ainda não se tenha apercebido que possa usar como arma numa guerra caseira.
-Aquele vibrador rabbit. É a noite toda zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá… depois vem o pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá…tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá…zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum. – Estão todos atentos aos meus lábios. Estou a ser emotiva, tenho a certeza. A Ana parece que vai chorar. – Mas o pior é quando passa horas no zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Até que tenho de gritar: “foda-se Ana!”. Epá é que quer dizer, uma gaja precisa de dormir. Aquela merda fode os cornos a qualquer um. – acho que vou ficar sem almoço durante uma semana.
-Oh Patrícia, caralho. –diz ela. Se calhar entusiasmei-me com o rumo da conversa.
-Oh Ru. Não te sintas envergonhada. Aqui o Johnny gosta de saber destas histórias. Tamos em família, caralho! Não te ponhas com timidezes. – ela baixa os olhos e contorce os lábios, numa daquela: “Pois. Parece que assim é.” – Até porque eu não fico a pensar que és uma puta ou assim, hum? Não me interpretes mal. Eu acho até bastante curtido essas cenas. – O Daddy tem um brilho diabólico nos olhos. O whisky leva-me sempre ao fundo das questões. A mesa mantém-se em silêncio agora.
-Então pá Johnny! – diz o Jimmy entusiasmado – no outro dia vi aí um vídeo teu com uma garina qualquer. Qual delas é que era? – diz com um riso idiota e tipicamente masculino. – Sem ofensa, querida. – dirigindo-se à Trevo, que acena tranquilamente.
-Ah! Era esta! Aqui a minha favorita! – e nisto agarra-a pelos ombros e dá-lhe um grande beijo na boca. Estamos sem palavras.
-Então quer dizer que já está tudo bem? – pergunto eu, sem pensar.
-O QUÊ? – pergunta a Tré assanhada e sem perceber patavina desta merda. O Johnny olha para a Ana, a Ana olha para mim, foda-se está duplamente zangada; o Daddy olha para o Jimmy e o Jimmy olha para o Daddy. Depois olham todos para mim, que coro cada vez mais enquanto encolho os ombros e imploro por misericórdia. Olham todos menos o Johnny que foca a Ana com um ar zangado e neurótico.
-Do que é que ela está a falar? - pergunta a Tré com um sorriso nos lábios. Rezo para que esse sorriso não desapareça. Bebo um grande gole de vinho. Ela continua na espectativa. Bebo o resto do copo.
-Johnny? Johnny? JOHNNY? - a inquietação dentro da Tré é visivel a todos nós. Puxa-lhe a manga do casaco freneticamente.
– DO QUE É QUE ELA ESTÁ A FALAR, JOHNNY?
Estou tão lixada que nem me apetece pensar nisso. Voltam todos a olhar para os pratos e o Johnny resmunga baixinho enquanto fita a Ana – Sua puta, sua puta.
-Bem, acho que vou buscar o gelado. – mas continua sem se levantar.
-Johnny! Do que é que ela está a falar? – a voz da Tré é decididamente estridente e irritadora. Deixei de ter pena dela.
-Foda-se, caralho! Mete-te na merda da tua vida. – Todos mantém um olhar de enterro. Mas que casualidade, ouvir o Johnny falar assim com a maior parte das suas namoradas.
-Mas Johnny! – grita ela.
-FODA-SE! JÁ TE MANDEI CALAR. – olha tudo para baixo.
-Estou grávida, Johnny. – Olha tudo para ela. Sem dúvida que estes jantares são para repetir.
-O quê? – diz ele, perplexo.
-Estou grávida. – e nisto começa a soluçar. – Com licença. – e levanta-se da mesa mais vermelha que um tomate. Todos se mantém calados.
-Bem eu acho que vou buscar o gelado. – diz a Ana uma vez mais.
-Eu vou buscar a merda do gelado. – digo eu já irritada com essa deixa.
Por Patrícia em Nevermind (Cap. Ninguém te vai dar tau-tau) 2008
-Ana estás muito bem. - diz o Johnny focando o olhar sério e doente na silhueta da Ana.
-Desculpa?
-Sim, caralho... Não te faças de desentendida... Estás boa!
-Hum, bem obrigada, Johnny.
-Oh, qual obrigada qual quê. Ainda andas com o larilas do Darwin?
-Larilas?
-Sim pá, toda a gente sabe.
-Toda a gente sabe do quê?
-Toda a gente sabe do que se passou!
-Do que se passou? - a Ana parece mesmo não estar a pescar nada do que ele diz. - Estás a falar do quê, Johnny?
-Oh, foda-se. Tu sabes!
-Não, não sei!
-Que o papá dele lhe foi ao cuzinho. – A Ana olha ferozmente para o Ruben que abana a cabeça negativamente. Parece que não foi ele.
-Isso não é verdade. - desculpa ela.
-Caralho, Ana. CLARO QUE É VERDADE. Não me digas que nunca te apercebestes. As camisas aos quadrados, o sotaque…
-Ele é holandês…
-Merda pá, o que é que isso tem a ver? O que eu acho é que não devias perder tempo com esse gajo. Podes ter qualquer rapaz que queiras.
-Vê lá se não a queres violar ali no quarto de cima. – diz a Trevo num tom de voz infantilizado e irritante. A Ana abre os olhos perplexa. Eu estou a mijar-me a rir, mas continuo a esforçar-me para não o demonstrar. Caralho, que jantar!
-E que tal se te metesses na tua vidinha…– berra ele.
-Bem, eu vou buscar o gelado… - diz a Ana novamente.
-Então e tu Patrícia? Ainda não te ouvi dizer nada esta noite. Deves estar enfrascadíssima em whisky. – a Ana levanta uma sobrancelha. Esta conversa está a ser interessante para todos.
-Eu?
-Sim, pá. Quem é que é o tipo que andas a papar agora?
-Bem, não tenho um relacionamento estabelecido agora. – Estabelecido não consta no dicionário de bolso dele. – Não ando a papar ninguém agora.
-Ah! Gostas de foder uns e outros, não?
-Sim, exactamente isso! – diz o Daddy. Filho da puta.
-É, eu também não tenho nada sério agora. – A Trevo levanta os olhos e fita-o desesperadamente. O namorodo deles acabou de ser rebaixado à condição de "nada sério" em frente a um grupo de agarrados. Acho que se começa a aperceber do que é que aquela maça cinzenta cerebral é feita. – Um gajo precisa de se abrir de vez em quando.
-Então e à bocado acabaste por conseguir dormir alguma coisa de jeito? – pergunta-me finalmente o Jimmy. -Epá não. A Ana resolveu despachar uma garrafa de vodka e foder-me os cornos. – As atenções centram-se na Ana que me abre os olhos ofendida. Estou-me a cagar, vou prosseguir. – Oh, mas eu já estou habituada. Quando não me esgravata a porta põe-se com aquela merda barulhenta no quarto.
-Que merda barulhenta? – pergunta o Daddy, desejoso de ter qualquer assunto de que ele ainda não se tenha apercebido que possa usar como arma numa guerra caseira.
-Aquele vibrador rabbit. É a noite toda zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá-zá… depois vem o pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá…tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá…zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum. – Estão todos atentos aos meus lábios. Estou a ser emotiva, tenho a certeza. A Ana parece que vai chorar. – Mas o pior é quando passa horas no zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Até que tenho de gritar: “foda-se Ana!”. Epá é que quer dizer, uma gaja precisa de dormir. Aquela merda fode os cornos a qualquer um. – acho que vou ficar sem almoço durante uma semana.
-Oh Patrícia, caralho. –diz ela. Se calhar entusiasmei-me com o rumo da conversa.
-Oh Ru. Não te sintas envergonhada. Aqui o Johnny gosta de saber destas histórias. Tamos em família, caralho! Não te ponhas com timidezes. – ela baixa os olhos e contorce os lábios, numa daquela: “Pois. Parece que assim é.” – Até porque eu não fico a pensar que és uma puta ou assim, hum? Não me interpretes mal. Eu acho até bastante curtido essas cenas. – O Daddy tem um brilho diabólico nos olhos. O whisky leva-me sempre ao fundo das questões. A mesa mantém-se em silêncio agora.
-Então pá Johnny! – diz o Jimmy entusiasmado – no outro dia vi aí um vídeo teu com uma garina qualquer. Qual delas é que era? – diz com um riso idiota e tipicamente masculino. – Sem ofensa, querida. – dirigindo-se à Trevo, que acena tranquilamente.
-Ah! Era esta! Aqui a minha favorita! – e nisto agarra-a pelos ombros e dá-lhe um grande beijo na boca. Estamos sem palavras.
-Então quer dizer que já está tudo bem? – pergunto eu, sem pensar.
-O QUÊ? – pergunta a Tré assanhada e sem perceber patavina desta merda. O Johnny olha para a Ana, a Ana olha para mim, foda-se está duplamente zangada; o Daddy olha para o Jimmy e o Jimmy olha para o Daddy. Depois olham todos para mim, que coro cada vez mais enquanto encolho os ombros e imploro por misericórdia. Olham todos menos o Johnny que foca a Ana com um ar zangado e neurótico.
-Do que é que ela está a falar? - pergunta a Tré com um sorriso nos lábios. Rezo para que esse sorriso não desapareça. Bebo um grande gole de vinho. Ela continua na espectativa. Bebo o resto do copo.
-Johnny? Johnny? JOHNNY? - a inquietação dentro da Tré é visivel a todos nós. Puxa-lhe a manga do casaco freneticamente.
– DO QUE É QUE ELA ESTÁ A FALAR, JOHNNY?
Estou tão lixada que nem me apetece pensar nisso. Voltam todos a olhar para os pratos e o Johnny resmunga baixinho enquanto fita a Ana – Sua puta, sua puta.
-Bem, acho que vou buscar o gelado. – mas continua sem se levantar.
-Johnny! Do que é que ela está a falar? – a voz da Tré é decididamente estridente e irritadora. Deixei de ter pena dela.
-Foda-se, caralho! Mete-te na merda da tua vida. – Todos mantém um olhar de enterro. Mas que casualidade, ouvir o Johnny falar assim com a maior parte das suas namoradas.
-Mas Johnny! – grita ela.
-FODA-SE! JÁ TE MANDEI CALAR. – olha tudo para baixo.
-Estou grávida, Johnny. – Olha tudo para ela. Sem dúvida que estes jantares são para repetir.
-O quê? – diz ele, perplexo.
-Estou grávida. – e nisto começa a soluçar. – Com licença. – e levanta-se da mesa mais vermelha que um tomate. Todos se mantém calados.
-Bem eu acho que vou buscar o gelado. – diz a Ana uma vez mais.
-Eu vou buscar a merda do gelado. – digo eu já irritada com essa deixa.
Por Patrícia em Nevermind (Cap. Ninguém te vai dar tau-tau) 2008
The Moon Shines bright old
Acordo com o bater dos dedos suaves na porta. Estão quarenta grau e o meu corpo está molhado na sua própria transpiração. Há algo de relevante no modo como a janela se mantém aberta. Levanto-me e sinto as primeiras náuseas da ressaca apesar de ainda sentir o desconcerto do alcool. Volto a ouvir as leves pancadas na porta mas é demasiado cedo para alguém importante. Levanto-me e sinto a dor de cabeça que se avizinha e nao há nada que eu consiga fazer em relação a isso. Encho outro copo de Jack Daniels e sento-me à beira da cama. Fui um homem de sucesso outrora, tinha tudo. Sabia fazer tudo, era o melhor fazê-lo, mas algo ocorreu. Algo que não consigo indicar, definir, particularizar. O copo está totalmente cheio e mantem-se fixo nas minhas maos. Sinto na lingua o sabor doce e quente do whisky. Recordo-me de algo ocorrido na noite passada e ia jurar que vi a Sienna, à entrada do hotel sozinha. Os cabelos loiros agarrados à cabeça por um elástico e as suas feições intensas e calorosas. Recordo-me de como falava e procurava desesperadamente intrometer-se na minha vida, ou pelo menos de como o tentava fazer. Quebrar a barreira entre nós, nunca foi um passo acertado."É a lua, não é?" perguntou-me. Longas e quentes lágrimas rompem repentinamente e o copo fica vazio, bem como a garrafa, e só consigo ver a noite, tão postuma perante mim. E disse: "Sim, é a lua."
Por Paul Hudson em Jack Daniels
Por Paul Hudson em Jack Daniels
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Jack, Let's Make Love
Estou com uma paciência de merda. Aliás, estou sem a mínima paciência. Acabei por dormir menos de meia hora porque a Ana se lembrou de raspar as unhas na porta do meu quarto como se fosse um gato ou o caralho. Não tenho paciência para essas merdas. Ainda tentei enterrar a cabeça na almofada mas depois de alguns minutos a tentar apercebi-me que não ia aguentar assim tanto tempo. É que, infelizmente, ainda só respiro pelo nariz e a boca. Bom, a situação encontra-se no ponto em que tenho de me por minimamente apresentável, tenho de ajudar a por a mesa, tarefa que habitualmente me cabe, mas que hoje não me apetece fazer e tenho de receber amavelmente o cabrão do Johnny e a puta da namorada dele. É deprimente, as coisas difíceis que uma gaja se vê forçada a fazer. Para melhorar esta situação da treta acabei de ouvir a porta e deve ser o Daddy, pela maneira como a fez bater, o dia deve-lhe ter corrido uma merda e eu, sinceramente, não tenho o caralho a ver com isso. O problema é que para o Daddy isso pouca importa.
-Boa noite. – não me apetece conversas chatas. – Boa noite! – se ele me obrigar a abrir a boca temos um caso muito fodido entre mãos – BOA NOITE! .....MAS QUE MERDA É QUE EU TE FIZ AGORA? – a verdade é que não fizeste nada, mas não tenho paciência para ti e tenho a leve sensação que ainda irás fazer.
-Hoje o Johnny e a nova namorada dele vem cá jantar – diz a Ana, que pelos vistos recuperou rápido da proeza de há algumas horas. Estou impressionada! O que é que a tipa fez?! Os olhos dela estão incrivelmente lúcidos.
-Hoje? – partilhamos desta satisfação interior.
-Opá Daddy não te ponhas com merdas agora. Sabes bem que o tipo vai trazer um porradão de cocaína e nós não queremos merda com o Johnny pois não?
-O Johnny que se vá foder. Eu quero é que ele e as putas das namoradinhas dele morram.
-Não sejas estúpido. Se não estivéssemos aqui a falar do Johnny eu até acreditava nessa treta. – O Ruben é capaz de ser um filho da puta ainda maior que o Johnny por isso não me admirava nada que realmente o quisesse morto. Este gajo até a mamã devia querer exterminar.
-Daddy, trata das coisas com a Patrícia, eu vou dormir um bocado porque estou com uma dor de cabeça horrível.
-Eu? Mas eu por acaso convidei alguns cabrões para virem cá jantar? Por mim esses tipos nem punham os pés cá em casa!
-Pois mas parecem que vão, portanto não faças merda! – e nisto bate com a porta. Provavelmente alguém vai jantar com um olho negro… e não sou eu.
-Mas o que é que lhe deu? –não lhe vou responder, estou a achar um piadão em embirrar um bocado com o fulano. – Foda-se, mas tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Qual é que é a merda do teu problema? – se não estivesse a fingir de zangada desmanchava-me já a rir. Mas tenho uma imagem a manter. – RESPONDE-ME. –talvez sempre serei eu a ir jantar de olho negro. Isto se ele até estiver bem disposto. – EPÁ! CAMBADA DE ANORMAIS – e bate com a porta. Parece que resto eu e tu. Jack. Meu homem.
Por Patrícia em Nevermind (Cap. Rapariga procura garrafa de whisky para relacionamento sério) 2008
-Boa noite. – não me apetece conversas chatas. – Boa noite! – se ele me obrigar a abrir a boca temos um caso muito fodido entre mãos – BOA NOITE! .....MAS QUE MERDA É QUE EU TE FIZ AGORA? – a verdade é que não fizeste nada, mas não tenho paciência para ti e tenho a leve sensação que ainda irás fazer.
-Hoje o Johnny e a nova namorada dele vem cá jantar – diz a Ana, que pelos vistos recuperou rápido da proeza de há algumas horas. Estou impressionada! O que é que a tipa fez?! Os olhos dela estão incrivelmente lúcidos.
-Hoje? – partilhamos desta satisfação interior.
-Opá Daddy não te ponhas com merdas agora. Sabes bem que o tipo vai trazer um porradão de cocaína e nós não queremos merda com o Johnny pois não?
-O Johnny que se vá foder. Eu quero é que ele e as putas das namoradinhas dele morram.
-Não sejas estúpido. Se não estivéssemos aqui a falar do Johnny eu até acreditava nessa treta. – O Ruben é capaz de ser um filho da puta ainda maior que o Johnny por isso não me admirava nada que realmente o quisesse morto. Este gajo até a mamã devia querer exterminar.
-Daddy, trata das coisas com a Patrícia, eu vou dormir um bocado porque estou com uma dor de cabeça horrível.
-Eu? Mas eu por acaso convidei alguns cabrões para virem cá jantar? Por mim esses tipos nem punham os pés cá em casa!
-Pois mas parecem que vão, portanto não faças merda! – e nisto bate com a porta. Provavelmente alguém vai jantar com um olho negro… e não sou eu.
-Mas o que é que lhe deu? –não lhe vou responder, estou a achar um piadão em embirrar um bocado com o fulano. – Foda-se, mas tu estás a ouvir o que eu te estou a dizer? Qual é que é a merda do teu problema? – se não estivesse a fingir de zangada desmanchava-me já a rir. Mas tenho uma imagem a manter. – RESPONDE-ME. –talvez sempre serei eu a ir jantar de olho negro. Isto se ele até estiver bem disposto. – EPÁ! CAMBADA DE ANORMAIS – e bate com a porta. Parece que resto eu e tu. Jack. Meu homem.
Por Patrícia em Nevermind (Cap. Rapariga procura garrafa de whisky para relacionamento sério) 2008
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